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#primeiroassédio

Para ser sincera, eu não lembro exatamente qual foi o meu primeiro assédio, mas me lembro de alguns tantos que marcaram minha adolescência e me faziam ter medo de andar nas ruas. Sempre que via homens à frente, desviava ligeiramente. De preferência, atravessava a rua para não ouvir piadinhas e, ainda por cima, baixava a cabeça porque – de um certo modo – eu era colocada num papel que me inferiorizava naquele ambiente público.

Quando tinha lá para os meus 11 ou 12 anos, meus seios cresceram. Eu era uma menina franzina com os seios maiores que qualquer outra da minha idade. Uma vez, ganhei uma blusa cujo modelo era similar a um corpete. Minha mãe me pediu que fosse na mercearia comprar algo e, ao voltar, um rapaz bem mais velho passou por mim e sugou-lhe nervosamente a saliva, além de ter pronunciado algo como: “Oh os peito dessa menina”. Nesse dia, eu não sabia onde enfiava a cara. Senti vergonha e me silenciei. Tive receio que se falasse algo em casa, a culpa fosse colocada sobre mim que vesti aquela blusa para sair à rua – detalhe: a blusa não havia sido comprada por mim.

Além deste fato, lembro-me dos meninos que queriam passar a mão em minhas partes íntimas nas aulas em que os professores passavam filme. O escurinho propiciava a mão boba e eles, que não eram tão bobos, sabiam que existiria o meu silenciamento porque falar sobre o assunto faria com que eu fosse colocava numa situação do tipo saia justa. Se negassem a história relatada por mim, quem sairia com “fama ruim” seria eu.

Roupas curtas e decotadas eram motivos de andar praticamente correndo pelas ruas porque chamar a atenção pelo corpo nunca foi, para mim, sinônimo de beleza. Proporcionar os mais diversos tipos de palavras de baixo calão faziam-me temer qualquer aproximação com o gênero masculino. Cresci temendo ousar por causa do julgamento do homem e também familiar. Apesar de minha mãe ser mulher como eu, nunca consegui vê-la como a força que me diria “O corpo é seu, então não se importe com a opinião alheia”. Pelo contrário, ela traz em si este receio – que é fruto da nossa cultura. Logo, eu sou tachada antes de sair de casa se eu usar um decote ou mostrar muito as pernas porque lá fora há quem vai me julgar e, segundo alguns princípios, não posso nadar contra a corrente (Sabe de nada, inocente!)

Lembro-me também de uma vez que um colega na escola tentou me beijar e, no impulso, levantei a mão para bater na cara dele. Ele segurou minha mão e disse para nunca mais fazer isso como se eu realmente fosse inferior e tivesse que obedecê-lo. Prontamente, eu avisei que ele também não repetisse a dose. Apesar de temer e de silenciar, eu sempre fui muito de reflexo/impulso e, em alguns casos raros, manifestava-me até porque considerava o beijo como uma forma de ultrapassar todos os limites. Hoje percebo que todos os outros casos também eram ultrapassar limites, apesar de não haver o toque.

Cresci sentindo-me inferior à presença masculina. Cresci acreditando que atravessar a rua e abaixar a cabeça era a solução porque evitá-los era o meu papel. Cresci acreditando que se não houve o toque, o verbal poderia ser ignorado. Junto com isso, eles cresceram achando que poderiam falar o que quisessem e que – se não quiséssemos ouvir – era só atravessarmos a rua. Caso isso não acontecesse, seria – para eles – como se estivéssemos gostando. A resistência não fazia tanto sentido e ainda não faz. Muitos homens entendem o assédio como um elogio e pensa que nós somos ignorantes o suficiente para ter que aceitar algo – que nos é tão invasivo – como positivo. Tem mulheres que, infelizmente, ainda aceitam e baixam a cabeça porque – como eu – cresceu tendo que agir assim e – diferente de mim – não criou os anticorpos necessários.

Eu esqueci o meu primeiro assédio porque ele veio junto a uma sucessão de outros assédios que permanecem no meu cotidiano. Impossível saber quantas vezes já me chamaram de “gostosa”, disseram que iam “chupar minha buceta e lamber meu cuzinho”, iam me deixar de “perna bamba”, que sou “delícia”, que “até que é gostosinha” ou suportar o cara pegando no pênis e colocando-o pra fora para mostrá-lo em gestos mais que obscenos e por aí vai. Extremamente constrangedor, extremamente desnecessário e violentador. Eu sei e entendo as meninas que baixam a cabeça para tanto desrespeito verbal, mas hoje acredito que levantar a cabeça (pedir baixinho que o pau do cara nunca mais suba), não desviar o caminho e se possível dizer umas verdades é muito importante… até porque não devemos nada a ninguém e tais atos provam que somos mais fortes do que meia dúzia de insolências proferidas por eles. Digo isso a depender do lugar que estamos, viu gente? Se for num lugar deserto, esta atitude pode acabar no estupro que vai além das palavras, infelizmente.

Os grupos feministas nos ajudam a ter mais força, redirecionar nosso pensamento para a igualdade de gêneros e não inferiorização da mulher também é uma ótima válvula. Algo que não podemos nunca esquecer é que nossas filhas e filhos não podem crescer com o temor e o desrespeito pelo qual fomos submetidas. Então, façamos das próximas gerações agentes transformadores desta sociedade que ainda falta quase uma eternidade para se recompor.

 

 

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Baiana. Graduada em Letras Vernáculas e em Jornalismo. Realizou pesquisa em Análise do Discurso, estudando a produção do discurso pornográfico. Descobriu-se apaixonada por assuntos relacionados ao sexo e a sexualidade. Adora brincar com as palavras e fotografias.

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