Sem Tabus

Substantivar-se em amante

A palavra “amante”, para mim, nunca teve uma conotação negativa. Pelo contrário, sempre entendi que o termo substantivava o ato de amar. Quem ama é amante, seja lá do que for. Eu, por exemplo, sempre fui amante de livros, filmes e música – inclusive, também sempre fui eclética e livre para experimentar formas, sabores e texturas. Falar de amante era preencher lacunas poéticas com derivações de uma palavra maior que, se tirar a vogal “i” do meio, torna-se amor.

Com o tempo, compreendi que falar de amante não era apenas referir-se a amores sadios e sedentos; mas que poderia haver toda esta intensidade, mesmo sem amor, em uma transgressão que carregava o mesmo termo. Transgredir, neste caso, é ultrapassar as barreiras de um relacionamento cujo sentido encontra-se na monogamia. A pertença única de um ao outro não aceita terceiros e se este, por acaso, aparece, logo recebe o nome de amante por também estar ali para preencher algum espaço de carinho, de sexo, de liberdade.

Amante, então, torna-se algo não aceitável. Metaforicamente, um portão aberto sem permissão e cuja chave foi jogada longe porque ter ou tornar-se amante parece ser um caminho sem volta, em que as consequências dependem do envolvimento dos três – ou quantos mais forem os envolvidos.

Julgar, então, passou a andar junto daqueles que fazem do proibido a forma inexata do amar. A gente julga sicranos e fulanos de todas as formas pelo ato de serem amantes. E tais julgamentos não têm escolhas nem circunstâncias nem meios termos. Apenas são. Representam uma maioria, inclusive de descabidos, que não se vê ocupando esta posição em pleno seio da sociedade.

Fazer parte dessa espera relacional nem sempre é uma questão de escolha; pelo contrário, pode ser um acaso, uma consequência de uma série de fatos que não cabem neste espaço. Assim, a gente se coloca enquanto indivíduos porque os amantes se constituem de experiências únicas que não nos cabe negativar ou julgar.

Transgressões acontecem, até mesmo quando atravessam desautorizadamente a faixa de pedestres. E apesar do ser amante ser apontado como aquele que foge das leis éticas e morais as quais conhecemos e nos sentimos representados, a individualidade só diz respeito a cada um em particular e a origem da palavra ainda há de permanecer – em meus versos, em meu corpo e em meu olhar – ainda que eu já tenha vivido o ser amante em todas as suas formas de se colocar.

 

Lu Rosário

Jornalista. Baiana. Leonina. Feminista preta. Apaixonada por tudo o que diz respeito a sexo e sexualidade. Palavras e fotografias são suas taras.

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