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Coisas da infância que ficaram em mim

Depois de uma sessão dolorosa de terapia, eu me recordei de uma cena que vivi durante minha infância. É como se eu estivesse ali, na sala de minha casa, usando um shortinho folgado e uma blusa laranja. Enquanto minha mãe preparava um suco, aquele senhor, primo distintíssimo de minha avó, pegava-me pela mão e pedia para eu ficar sentada em seu colo. Aproveitava a ausência da minha mãe e sua mão adentrava a minha calcinha, sentia seu dedo apertando minha vagina e ele dizia que menina boazinha não gritava e também não comentava com ninguém o que o tio fazia.

Minha mãe sempre dizia que as meninas deveriam sempre obedecer aos mais velhos e assim eu fazia. A presença do primo idoso durou alguns dias e, sempre à tarde, ele aparecia, trazia doces para mim e, quando estávamos sós, eu degustava meus doces e ele alisava minha vagina. Recordo com muito nojo do pênis dele. Um dia ele mostrou um pouco de seu órgão para mim e colou minha mãozinha sobre a cabeça de seu pênis. A tarde foi mais longa porque minha mãe estava lavando roupas.

Eu era apenas uma criança de sete anos. Eu passei uma boa parte de minha vida sem comentar esse ato com ninguém, só tive coragem de revelar à minha psicóloga e meus traumas foram desvendados.

Caros leitores, o dedo dele me silenciou e eu tinha medo de ficar em lugares com muitos homens. Pegar carona, dividir a sala de trabalho, abraçar algum homem com cabelos brancos era algo impossível de realizar. Perdi a virgindade após os 24 anos e fazer sexo só à meia luz. Tenho medo dos dedos que podem me ferir e ainda não consigo me satisfazer plenamente na cama. A ida ao ginecologista é pavorosa, sinto dores pelo fato de saber que ele irá tocar em mim, fico inconsciente e choro.

Aquele senhor deixou cicatriz em mim. Eu tinha idade para ser sua bisneta e ele me molestava. Por que algumas pessoas são tão cruéis com crianças? Por que aquele dedo me tocava durante as férias? Por que não me ensinaram a não ser boazinha e desobedecer algumas pessoas? Tantas perguntas me sufocaram e tantos desejos enterrados dentro de mim.

Caros despudorados, compartilho o meu trauma para que quem têm filhos possa ensiná-los a sempre falar o que sente ou o que fizeram com ele ou se alguma pessoa tocou em seus seios, vagina, ânus e pênis. Traumas doem e castigam.

A terapia me ajudou a vencer alguns medos, mas ainda sei que preciso libertar-me das marcas para gozar plenamente de prazer.

 

Palavras de uma despudorada da Bahia.

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Baiana. Graduada em Letras Vernáculas e em Jornalismo. Realizou pesquisa em Análise do Discurso, estudando a produção do discurso pornográfico. Descobriu-se apaixonada por assuntos relacionados ao sexo e a sexualidade. Adora brincar com as palavras e fotografias.

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