Sem Tabus

Para ser linda, não é preciso seguir padrões.

Tem gente dizendo que é moda assumir os próprios cabelos em muitos cachos. A partir de agora tornou-se moda ser original no sentido literal da palavra. Quem aqui é mulher com cabelos crespos que nunca passou um alisantezinho no cabelo, deu uma escova, passou uma prancha ou caiu na escova progressiva, gradativa, marroquina e laralá? Se você nunca caiu nas garras da tentativa de ter os cabelos lisos ou menos volumosos, então já te dou o primeiro trofeu aqui do Pudor Nenhum, afinal, resistir a tudo isso numa sociedade onde beleza está associada aos cabelos lisos é coisa de guerreira e de personalidade fortíssima, além de mostrar que sua família é tão forte quanto você para que não a tornasse diferente quando criança.

A maioria das mulheres já alisaram o cabelo, senão quando criança…um pouco mais tarde, diria na adolescência, para se achar mais bonita e atrair os olhares dos meninos. Construídos sócio, histórico e culturalmente, os cabelos crespos possuem sua origem num povo que fora escravizado no período colonial do Brasil e cujos descendentes sofrem preconceito até hoje. Enquanto brasileiros, somos uma mistura entre negros, europeus e índios. Nossa pele e fios de cabelo variam imensamente em tonalidades e texturas, permitindo que sejamos tão diferentes umas das outras ou uns dos outros. Porém, preza-se a lisura ostentada pelo europeu e o preconceito do que foge a este padrão se acentua todos os dias e dos mais variados modos, até mesmo por aqueles que também carregam cabelos crespos.

Com essa tendência maravilhosa de assumir os cachos e reconhecer seus próprios cabelos sem químicas nem bobeiras, muitas mulheres têm buscado força na outra para mostrar o porquê veio ao mundo. Algumas preferem e se encorajam no BC (Big Chop), que significa cortar todo o cabelo para retirar toda a química. Além disso, formas de se cuidar do cabelo tem sido divulgadas nas redes sociais. Já que os salões de beleza não possuem a opção de cuidar de cabelos crespos, então o compartilhamento de produtos e experiências ajudam para que este cuidado comece em casa.

 

Organizadoras do Encrespa Conquista, em Vitória da Conquista - BA. Fotografia: Ernaque Al Majida Jr.
Organizadoras do Encrespa Conquista, em Vitória da Conquista – BA. Fotografia: Ernaque Al Majida Jr.

 

Responsáveis por um domingo com muitas encrespadas, o evento Encrespa Conquista aconteceu antes de ontem em um local lindo no bairro Sinhorinha Cairo. Todas elas tomaram um banho de autoestima para que pudessem compreender que preconceito algum deve abatê-las e que a força deve vir de dentro. Viver escrava da opinião alheia e com medo de suar, sair no vento, na chuva ou até mesmo tomar um banho na praia ou piscina é sufocante. Saber que o cabelo é seuzinho da silva não tem preço.

Para ser linda de verdade, a única coisa que se deve ter em mente é ser você mesma sem tirar nem por. É vestir o que te deixa mais a vontade, é usar acessórios ou não – isso é o que menos importa, é sorrir desmedidamente e se aceitar do jeitinho que veio ao mundo, sem neuras. E dizer que isso é moda chega a ser engraçado. Se for moda mesmo, estou (ou estamos) seguindo a tendência e não vou (vamos) sair dela nunquinha, não é?

Para saber mais sobre o Encrespa Conquista, acesse a página no Facebook e o Instagram. É lindinho e promete outros eventos na cidade. Para saber como anda a empolgação de quem resolveu mostrar os cachinhos, futuque bastante a internet- não faltam fan pages, blogs, sites e canais no You Tube com ótimas dicas. Lembre-se que a sensualidade que vai emanar de você quando se sentir plenamente a vontade consigo mesma é algo incomensurável.

Aos homens, sintam-se à vontade para fazer o mesmo. Fiz esse texto voltado para as mulheres porque sabemos, claramente, que elas são as mais atingidas. Homem tem aquela coisa de cortou e tá lindo. Nós é quem somos elas nessa tal de vaidade e de feminilidade que nos toma. Pois então, liberdade – a partir de agora – é o que nos define.

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Jornalista. Baiana. Leonina. Apaixonada por tudo o que diz respeito a sexo e sexualidade. Palavras e fotografias são suas taras.

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