Sem Tabus

A polêmica da Aparadinha no interior da Bahia

No dia 19 de junho, foi lançado um vídeo que deu o que falar nas redes sociais. O youtuber Driuzão e a blogueira Lorena Dias, do blog Só Lorota, gravaram uma paródia da música de Anitta. Nesta, eles abordam o cabelo como aquele que precisaria ser cortado para que o protagonista pudesse sair com a pretendente. Entretanto, o modo como se deu a abordagem na letra da canção deixou muitos indignados, principalmente aqueles de cabelo crespo – tais como o do youtuber em questão. Desse modo, o movimento Encrespa Conquista manifestou-se com uma nota de repúdio e a blogueira se retratou em seu canal de maior divulgação, o Instagram.

A não aceitação em relação ao vídeo começa em seus primeiros minutos, quando a blogueira é convidada para sair e, com uma expressão bem marcada, nega o convite por causa do cabelo dele. Assim as falas se configuram: – Nós vamos sair hoje, né?/– O quê? Você com esse cabelo? Não mesmo. Deus me livre!. Ao observar esse diálogo, concluímos de imediato que o cabelo crespo não lhe é aceito. A expressão de nojo deixa dito que aquele cabelo não é apropriado e vai além de uma simples questão deste estar grande ou não.

Em sua retratação, a blogueira diz ter gravado sua parte do vídeo sem saber o que viria a seguir, mas eu lhe pergunto: Independente do que seria o vídeo em sua completude, você gravaria tal fala? A minha resposta seria não, visto que somente ela já estaria vestida de preconceitos. Logo, quaisquer coisas que ela venha a falar para se justificar não lhe tirariam a culpa. Entretanto, apesar de tudo, o seu ato de se retratar aliviou a culpa até porque ela é uma figura pública e não pode sustentar tais discursos.

Mais adiante, Driuzão segue cantando Deixei os meus cabelos crescer/Quero aparar, só que é de vez em quando/Um mendigo posso até parecer/A minha conta bancária mostra que sou mesmo. Neste ponto, a gente pensa: Cabelo grande dá um aspecto de sujo? Ou seria um cabelo crespo? A sociedade diz que o crespo possui um aspecto de sujo, de duro, de impermeável. A gente cresce ouvindo os pais nos falarem que é preciso alisá-los para obter uma aparência melhor. A gente, portanto, vive uma pressão para sermos o que não somos e isso faz com que, ao nos autoaceitarmos, queiramos romper esse discurso em qualquer instância. Retificá-lo não pode ser piada, nunca. Antes de continuar, vamos assistir o vídeo!

 

 

Adiante, a letra da paródia diz Tu tem medo dos cabelo/Daqui de cima ser igual os de lá debaixo. Ao comparar o receio dos cabelos serem iguais aos pelos pubianos mostra o quanto o preconceito está presente. Na descrição do vídeo, é dito ter sido feita uma comédia sem maldade. Acredito nisso, mas questiono: Comédias devem ser feitas em cima de algo que machuca tanto as pessoas? Devemos rir daquilo que reprime tantas mulheres?

Em sua nota de repúdio, o Encrespa Conquista afirma: Não estamos aqui debatendo apenas questões relacionadas à aceitação do cabelo, mas de bem estar pessoal, não se trata de “frescura” se trata de realidade, e da forma que isso é passado. A partir do momento em que alguém se expõe completamente nas redes, ela dá o direito ao outro de se posicionar sobre, e demonstrar orgulho ou desgosto, e cabe a quem veiculou tal material ter a decência de saber e entender se que é dito fere o outro de alguma maneira e a quantidade de pessoas que vieram até nós falar sobre isso, foi esmagadora. O Pudor Nenhum, é claro, compartilha. 

O riso deve ser proposto de forma saudável e não sobre algo que oprime as pessoas. Fazer comédia dessa forma é uma falta de bom senso. Além do mais, as críticas não foram respondidas de forma educada. O próprio youtuber respondeu a todos com grosseria e permaneceu em sua insensibilidade de tentar entender o que queríamos falar ao negar seu vídeo.

A sua audiência aumentou após toda a discussão a respeito. No entanto, ficou uma sombra negativa sobre o seu trabalho. A função do Encrespa Conquista, do Pudor Nenhum e de outros movimentos que visam a igualdade é justamente impedir que mais gente se sinta à margem. Queremos mais atos de amor, mais sorrisos saudáveis e mais respeito.

Lu Rosário

Jornalista. Baiana. Leonina. Feminista preta. Apaixonada por tudo o que diz respeito a sexo e sexualidade. Palavras e fotografias são suas taras.

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