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Sex Shop é aquele lugar que parece um paraíso, todo mundo tem vontade de entrar, mas nem todos tem coragem. Essa covardia está aliada aos julgamentos alheios devido ao fato de você estar adentrando em um local que é todo recoberto de sexualidade. Passar pelas portas de um lugar que vende produtos eróticos assemelha-se a expor a sua intimidade e ter a sua privacidade invadida – tais coisas são vistas dentro de um conjunto fechado por algumas chaves.

As pessoas, principalmente as mulheres, crescem dentro de um sistema que lhes inviabiliza quaisquer manifestações e possibilidades sexuais. Na relação familiar e ainda na adolescência, não é possível falar sobre o assunto perto delas nem ver cenas de erotismo na televisão ou até mesmo oferecer a oportunidade de momentos a sós com alguém do sexo oposto. Comigo, que sou mulher, bem como com minhas amigas e conhecidas foi assim – a mesma criação em seios familiares diferentes; já com nossos irmãos, a liberdade era maior e eles podiam – inclusive – dormir com suas namoradinhas em seus respectivos quartos.

Apesar da liberdade maior dos homens, ainda assim, entrar em um sex shop não é uma tarefa tão fácil porque o seu contato passa pelo outro e abrir a boca para falar de si neste quesito não é fácil para ninguém, especialmente se este outro for do sexo oposto. De acordo com um leitor, “Às vezes fico com receio das pessoas que passam e nos vêem lá dentro, principalmente se for uma mulher, e de ser atendido por uma; mas, pelo prazer, a gente encara tudo”.

Pela internet ou até mesmo em lojas físicas, os sexs shops trabalham com uma política de discrição, que é considerada essencial quando o assunto é sexo. No entanto, tais lojas não virtuais encontram-se em ambientes públicos e isso dificulta o acesso pelos que gostam de preservar sua intimidade. Quando se é evangélico, entrar em sex shops é algo mais agravado. Uma leitora disse ao Pudor Nenhum que “Eu tenho receio de entrar em um local desse e, quando sair, der de cara com alguém, principalmente com os evangélicos. Eu vou ficar muito envergonhada, principalmente porque ficam em locais públicos”.

Além desse julgamento como se um evangélico não tivesse uma vida sexual com o parceiro, há também a preocupação daqueles que são muito conhecidos naquele bairro, cidade ou estado. Uma leitora, portanto, enfatiza que “A minha questão é principalmente por ser uma pessoa pública e meu esposo também. Então, vamos supor que eu estou preparando uma surpresa. Se alguém ver e comenta com ele, isso pode gerar um desconforto. E tenho receio de também encontrar alguém na saída. Como são posicionados em locais de muito movimento, isso inibe entrar. Quando a gente fica sabendo de um vendedor individual ou de um sex shop itinerante, a gente fica mais à vontade”.

E é desse modo que tem surgido os sex shops itinerantes a fim de atender a demanda de mulheres e homens que optar por resguardar a sua privacidade. Esta tem sido uma das grandes apostas do mercado e o Pudor Nenhum, é claro, está entrando no ramo. Por enquanto, não venderei por aqui, mas farei resenhas dos produtos. Aos que moram em Vitória da Conquista, na Bahia, é só enviar um e-mail ou comentário que a gente troca figurinhas e se encontra. Para quem for de longe, faça o mesmo e daqui a gente calcula o frete e eu te envio com o coração maior do mundo. Farei também um grupinho no whats e será super sexcreto, ta? Quem quiser, é só avisar. Enquanto isso, vou aqui ajeitar todos os pedidos que vão nos dar o maior prazer com toda a discrição que precisamos. Nos reencontramos em breve!

 

Quando se pensa em uma dança que explora a sensualidade, vêm à cabeça da maioria das pessoas a dança do ventre. No entanto, ninguém busca conhecer sua origem nem a reconhece enquanto uma manifestação cultural. Neste sentido, a dança do ventre tornou-se uma expressão corpórea e provocativa para o gênero masculino, bem como um símbolo de preconceito por ter se popularizado como aquela que promove e intensifica a sexualidade.

Antes de escrever esse texto, eu comecei a pesquisar sobre a origem da dança do ventre, conversei com a dançarina Mariana Rabêllo e deparei-me com muitas versões – o que não é de estranhar, visto que a dança é uma manifestação antiga e, como tudo no tempo, passa por transformações. A linguagem oral também possibilita alterações no modo de se contar uma história. Para alguns, tal dança surgiu na Índia, outros dizem ter sido no Egito e por aí vai. Já a expressão dança do ventre, dizem ter surgido em 1893 e ser oriunda do francês danse du ventre.

Como conhecemos, a dança do ventre é – majoritariamente – dançada por mulheres com vestimentas que deixam a barriga à mostra. Os movimentos do corpo lembram um serpentear enquanto as mãos e braços acompanham-no de forma delicada e sensual. A sua história deixou de ter um cunho religioso e cultural para tornar-se, em alguns países do ocidente e também do oriente, uma dança a ser apresentada somente entre quatro paredes ou como forma de sedução. Profissionalmente, no Brasil, nem sempre tem reconhecimento, principalmente, em cidades interioranas.

Em uma sociedade patriarcal e – consequentemente – machista, as mulheres casadas ou enamoradas, ainda possuem uma relação estreita com o cônjuge na qual há submissão. Devido a isso, elas não podem dançar em outro lugar a não ser para eles. No caso de mulheres solteiras, há um olhar atravessado pelos sentidos que a constituem por causa da dança. Com todas as palavras, o preconceito rola pesado. Mariana Rabêllo, que é professora de dança do ventre, confirma que

 

Há ainda um preconceito na dança oriental, principalmente para as bailarinas que vivem da própria arte. Além disso, existe o preconceito gerado por parente e familiares de algumas alunas. Há situações onde o marido permite que ela faça, porém, não pode se apresentar em público (portando o traje ou não). Elas podem dançar apenas para ele. Claro que a dança do ventre tem todo um lado sensual, mas ela é a herança e cultura de um povo que, a princípio, usava a dança para cultuar uma deusa, para preparar o corpo da mulher para se tornar mãe. Alguns movimentos como o camelo e as ondulações de braços, por exemplo, são inspirados nos movimentos realizados pela cobra e pelo camelo; o shimmie tem o o poder de curar, com sua movimentação localizada no chakras básico, libera energia, acaba com o stress, faz o ground, solta o corpo, ativa a circulação e renova a energia, além dos inúmeros benefícios que a dança oriental proporciona.

 

Como foi dito, a dança do ventre vai além do fato de ser uma dança sensual. Ela estimula a criatividade, corrige a postura, relaxa o corpo e a mente, proporciona contornos mais definidos aos braços e os ombros, desenvolve a agilidade e a concentração, tonifica e fortalece a musculatura abdominal, desenvolve a agilidade e a concentração, queima calorias, aumenta a circulação e a flexibilidade, combate a depressão, alivia os sintomas da menopausa e melhora a autoestima.

Agora me diz: O corpo é de quem? É nosso. As mulheres podem dançar como quiserem para si mesmas e para expressar a arte, não necessariamente para agradar e chamar a atenção do sexo oposto, mas como forma de perpetuar uma cultura e uma dança que perdura no tempo. Ninguém deveria ter uma má reputação por causa da arte que, em si, vive. Pessoa alguma deveria nos restringir, sem contar que nós temos o livre arbítrio – ou seja, plena liberdade – bem como preferências às manifestações artísticas. Portanto, termino com as palavras de Simone Martinelli (trazidas por Mariana Rabêllo).

 

Em tempos muito antigos, a dança era a representação da natureza. As mulheres observavam e reproduziam os movimentos da natureza em forma de dança para estabelecer uma comunicação com os deuses e deusas para que, assim, alcançassem a cura, milagre ou a benção.

 

Coisa mais linda, não é? Vamos desconstruir nossos conceitos culturalmente construídos e se permitir perceber a dança do ventre em sua essência. Quem for de Vitória da Conquista, na Bahia, e estiver a fim de fazer uma aula experimental e conhecer um pouco desta dança tão polêmica, pode entrar em contato com Mariana Rabêllo aqui pelo Pudor Nenhum. Basta mandar um comentário para mim e ela, certamente, saberá. Antes que pensem que o assunto encerrou por aqui, saibam que falar de Dança do Ventre é trazer muita coisa na bagagem. Então, em breve, tem mais!

 

Este foi o primeiro filme que assisti sobre a transexualidade e confesso que chorei (e chorei muito!). O filme retrata a história do transexual Brandon Teena que, ao mudar-se para uma pequena cidade e assumir uma identidade masculina, é descoberto com um corpo, geneticamente, feminino. Antes da descoberta, apaixona-se por Lana e começa a relacionar-se com ela. Além disso, faz amizades com outras pessoas pertencentes ao círculo onde ele e Lana fazem parte.

Entretanto, sua condição de transgênero é descoberta e mal compreendida. Começam os disparos de violência e, concomitantemente, a nossa dor perante o sofrimento do personagem nos machuca. Saber que aquilo realmente acontece nos machuca duplamente. Foi por todo o preconceito, todo o modo dele se olhar no espelho e por toda a questão de ter que viver uma vida dupla devido a não aceitação social que a gente consegue se colocar no lugar dele.

 

Lana e Brandon Teena, personagens do filme.

Lana e Brandon Teena, personagens do filme.

 

Este filme nos permite entender um pouco essa realidade que nos cerca, cujo transexual é visto praticamente como um monstro ou um anormal, tanto pela sociedade quanto pela família. Alguns casos terminam bem. Neste, você precisa assistir para saber como terminou essa história – um drama que me tirou algumas tantas lágrimas. Assim como Tomboy, é um filme que deve fazer parte da sua lista de próximas produções cinematográficas. Prepara a pipoca, chama ozamigo e se joga neste domingo. É bom demais um filmezinho, ainda mais com uma importância social tão grande.

 

Não é de hoje que a questão do preconceito me traz reflexões. Nunca consegui compreender o porquê das pessoas não aceitarem o outro por uma característica externa, uma doutrina ou qualquer coisa que lhe seja particular. O preconceito, como o próprio nome diz, é uma ideia ou conceito pré-concebido sobre alguma coisa. É julgar sem antes conhecer e usar da ignorância para impor sua forma de pensar. Estou falando isso devido a algumas histórias que acontecem comigo devido a cor da minha pele. Na maioria das vezes, acontece de modo silencioso. E não só porque acontecem comigo, mas por ver outras pessoas compartilharem histórias parecidas. Logo, são exemplos que se repetem cotidianamente.

A questão racial está intimamente ligada a trajetória histórica do nosso país. Índios foram violentados e violados (inclusive sofrem muito preconceito até hoje e seria muito legal um dia poder conversar com um descendente direto para saber como isso se dá). Negros foram trazidos como objetos e sofreram em nossa terra. Após o período escravocrata, quem formou as favelas e permaneceu sofrendo com todo o seu passado? O negro. Estatisticamente, são eles que ocupam, majoritariamente, a classe mais desfavorecida da sociedade. Com isso, também possuem menos oportunidades.

Para ser mais específica neste assunto, pensemos no quanto é comum pensar que João ou Maria trabalham naquela casa como auxiliar de serviços gerais  porque são negros, que ele está ali naquela casa de material de construções porque é empregado e atua no serviço braçal. Caso tenha uma condição notavelmente melhor, há que certificar-se primeiro para depois poder manter um diálogo maior e mais íntimo. Se for homem, pode ser que ele seja bem financeiramente porque mexe com algo ilegal; caso seja mulher, nem sei o que devem pensar. Acontece que pelo fato de ter uma pele escura, a pessoa sempre é julgada como se isso a tornasse diferente dos outros.

Além do que citei acima, existe a hipersexualização do negro. O homem é sempre visto como aquele que tem um pênis grande e grosso; a mulher como aquela que é quente na cama e cuja pele é tida como da “cor do pecado”, conferindo-lhe um ar de pecaminosidade. Esses estereótipos colocam-nos como impróprios para o matrimônio e propícios às relações casuais. Segregá-los a tais pensamentos é ser preconceituoso e esta perspectiva de pensamento está clara nos meios sociais, basta prestar atenção no que as pessoas dizem por aí, olhar mais atentamente ao seu redor e atentar-se às telenovelas e programas televisivos, bem como polêmicas a respeito. Assim, você vai saber do que estou falando e ser mais cuidadoso para não fazer perpetuar algo que soe preconceituoso.

Gente, vocês viram essa propaganda publicitária da Bombril? Em uma das falas, Ivete Sangalo diz que “A gente arrasa no trabalho, faz sucesso o dia todo e ainda deixa a casa brilhando. É por isso que toda brasileira é uma diva”. Essa concepção construída historicamente sobre a mulher tem buscado outros rumo e se desmistificado cotidianamente. Ainda assim, é uma tarefa difícil porque, na mulher, está encrustada a ideia de que a casa e os filhos sempre serão obrigação dela.

Por meio de movimentos feministas, algumas conquistas têm sido alcançadas ao longo do tempo. Para quem não sabe, a mulher não tinha direito de fazer sexo por prazer nem de votar em um governante para o país. A coisa era barra pesada. Para ela, os papeis eram apenas de reprodução e dona do lar. Com a necessidade de ir trabalhar fora, tais papeis permaneceram, ou seja, não houve uma divisão igualitária do trabalho nem um repensar sobre a mulher. Numa sociedade machista, não haveria razão de se mudar isso, não é? Veja a propaganda abaixo!

 

 

A mulher, portanto, passou a ter uma tripla jornada de trabalho. Para quem pensa que isso é moleza, engana-se. Trabalhar fora e manter a casa arrumada não é um trabalho fácil e não deve considerada a razão para sermos divas. Ser diva é se mostrar mulher, independente de como se lida com as tarefas diárias. Propagar uma ideia, tal como foi feito pela marca, é afirmar que tais papeis devem prevalecer e, praticamente, demonstrar que a gente está satisfeita com isso e se achando um sucesso.

Quem disse que amamos isso? A gente se acaba com uma rotina dessa. Se pra ser diva for assim, preferia não ser nada. O tempo passa que a gente nem vê. O cansaço nos toma. Quando chega a noite, ainda querem uma noite de sexo selvagem como se nosso dia tivesse sido tranquilo (até porque tarefa de casa não é considerada quase nada no imaginário popular). A rotina da mulher nunca precisou e mereceu ser essa. Todos nós temos braços e pernas iguais para dividirmos as tarefas do mesmo modo, sejam elas domésticas ou não. Todo mundo consegue lavar prato, limpar banheiro e passar pano na casa do mesmo jeitinho.

A partir disso, Dani Calabresa – nesta propaganda – também disse “Toda mulher é uma diva, e todo homem é ‘diva-gar’ [devagar]”. Com o orgulho ferido, homens queixaram-se e consideraram a campanha uma ofensa. Com isso, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) abriu um processo para julgar o caso. Em vez de as mulheres tomarem essa atitude, os homens que pegaram a frente. Oh, esse assunto dá pano pra manga. Disse o que acho e agora quero ver o que vão continuar  falando por aí porque, sinceramente, se os meios publicitários agem assim é porque ainda será preciso muita luta para mudar este cenário. Desconstruir essa ideia a respeito de homens e mulheres é mais do que preciso, é essencial.

Eu nunca consegui entender o modo como os religiosos católicos e protestantes interpretavam a Bíblia. Ao mesmo tempo que falavam de amar e respeitar o próximo, criticavam-no. E, nesse ato de crítica, humilhavam e inferiorizavam o outro apenas por ter crenças diferentes. Um claro e atual exemplo disso diz respeito aos transgêneros, pessoas que expressam o seu gênero de forma diferente a que lhe é designada em seu nascimento.

Os transexuais, atualmente, são o assunto da vez. Chamamos, desse modo, aqueles que possuem transtorno quanto a identidade de gênero e, com isso, sentem desconforto ou impropriedade com seu sexo anatômico. Assim, passam pelo processo de transição para um gênero diferente do que lhe é imposto por meio do auxílio médico e tratamento de hormônios. No entanto, muitos não entendem que esta é uma realidade inerente ao ser humano que não o faz ser diferente de ninguém.

Com um discurso que os desconsideram, julgam-nos seres de natureza infiel. Por ignorância, não aceitam que cada um nasce com uma identidade e que isso independe de escolhas. Como uma forma de mostrar o quanto sofrem com o preconceito, Viviany Beleboni na 19º Para Gay em São Paulo, dia 7 de junho, colocou-se na cruz – assim como foi com Jesus Cristo – e assinalou os dizeres: Basta de Homofobia LGBT. Esse ato sucitou inúmeros lampejos de fúria. É aquela coisa: “Como pode um transexual querer se colocar no lugar de Cristo?”, “Que infâmia e que desrespeito!” ou “Usaram o nome de Deus em vão!”. E, então, eu me pergunto: Eles não são gente como qualquer um outro? É desrespeito realizar uma analogia para apontar um mau julgo, tal como o sentido por Cristo?

Para não acabar por aí, no dia 8 de agosto, Beleboni foi violentada ao andar na rua. E pior: a violência foi feita em nome de um deus que aceita atitudes como essa. Para falar a verdade, não sei que deus é esse e continuo sem entender onde se encaixa o amor e respeito ao próximo. O sentido de igualdade, pregado entre os homens, deveria ser algo real. O Pudor Nenhum não pode se calar nesse sentido e, por isso, irei falar mais sobre o assunto com vocês. Vamos tirar a ignorância de nossas gavetas internas e compreender as relações de gênero para sermos melhores em nossa sociedade, pode ser? Quem se cala demais, consente.

Quase 2 anos e 5 meses juntos. Ele com 27 e ela com 28 anos; ele baiano (mas viveu a vida toda em Natal, então convenhamos que já é um natalense), ela natalense nata; ele filósofo e ela professora de língua portuguesa – juntos fazem o encaixe perfeito das palavras em sintonia com o pensamento. Antônio Lázaro Vieira Barbosa Junior (impossível não lembrar o nome dele todo, ele faz questão de expor o sobrenome por aí!) e Laryssa Oliveira são dois jovens cheios de energia e que compartilham muito amor em um relacionamento considerado não convencional e que, por isso, ainda atrai alguns preconceitos. Você pode, inclusive, chamar de R.A. se preferir. O relacionamento aberto é uma forma de viver a dois que exige, mais do que tudo, confiança e segurança no outro. Sabendo disso e querendo entender como deslanchou essa relação, batemos um papo delícia pelo Facebook e veja aí o que rolou!

Depois de toda a introdução bestagística, chego ao ponto.

Eu: Mas sim, eu queria que falassem como vocês chegaram a conclusão de se relacionar dessa forma. Quem sugeriu e qual foi a reação do outro.

Ele: Na verdade, não foi sugestão. As coisas já começaram abertas.

Ela: Então, eu nunca tinha realmente pensado em R.A. até eu terminar o meu relacionamento anterior. Eu namorei quase 10 anos, monogâmica. Só que o relacionamento teve seus altos e baixos… eu trai, fui traída… enfim.

Ele: Mas, de certa forma, quem deu o empurrãozinho fui eu.

Ela: Daí eu queria tentar algo diferente e acabou que Lázaro e eu começamos a conversar sobre isso, né amor? Isso antes de ficarmos. E já começou aberto.

Ele: Num dia (domingo) a gente conversou a respeito; no outro dia, ficamos. Laryssa diz que quando a gente se encontrou, ela não tava pensando em ficar comigo e que as coisas apenas aconteceram lá. Já minha versão é que ela tinha algum interesse, manifesto no dia anterior.

Ela: Mimimi.

Ele: Mas só tive certeza quando rolou o beijo.

Ela: Já eu só tive certeza um tempo depois.

Eu: Kkkkkkkkkkk

Eu: E mais uma pergunta: não é porque é R.A. que é de qualquer jeito, ao léu, né? Vocês possuem regras, quais sao? são duas perguntinhas aí..haha.

Ele: Bom, regra regra a gente tem duas bem básicas: uma é ter disposição pra discutir a relação sobre tudo. No início, era sobre os sentimentos um do outro. Com o tempo, falamos sobre filhos (Laryssa que tocou nesse tópico), planos futuros (meu doutorado, o mestrado dela)…

Ela: Lázaro era meio fechado… ele não conversava sobre seus próprios sentimentos, a gente teve um quase problema por causa disso. Poxa, eu era novara nessa história de R.A.

Ele: Isso quase nos custou o relacionamento, pura frescuragem da minha parte.

Ela: E eu comecei a ficar insegura porque eu achava que tava sentindo algo mais forte, mas ele não parecia ter isso. Pelo contrário, ele fortalecia a minha insegurança falando sobre outras meninas (eu não lembro se foi bem isso… minha memória é horrível).

Eu: E resolveram isso a partir do momento que ele começou a se abrir?

Ela: Com certeza. Eu coloquei ele na parede… kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Ele: Comecei a me abrir? Laryssa me botou no fio da navalha.

Ela: Falei que o amava. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. mas deu certo.

Ele: Eu me abri de uma vez.

Eu: Pronto, deixou a frescura de lado!

Ele: Claro que ainda levei tempo a trocar chamego (em forma de palavras), mas no dia seguinte já soltei um “te amo” pra ela.

Ela: Aí deu certo \o/

Ele: Aí deu MUITO certo. Lembro que a primeira vez que chamei ela de “meu amor”, ela ficou toda saltitante.

Eu: E qual o maior desafio nesse tempo todo?

Ela: O maior desafio…? Pergunta difícil porque tem sido muito gostoso esse tempo. Passo pra lázaro essa!

Ele: Eu cheguei numa vibe meio Terezinha (Maria Bethânia)

O terceiro me chegou como quem chega do nada

Ele não me trouxe nada também nada perguntou

Mal sei como ele se chama mas entendo o que ele quer

Se deitou na minha cama e me chama de mulher

Foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não

Se instalou feito um posseiro dentro do meu coração

Eu: Vocês tiveram problemas ou algum questionamento (por algo) que em algum momento fizeram vocês quererem voltar atras pelo fato de terem levado a relação assim?

Ela: Não, nunca. Pelo menos, eu não.

Ele: Nunca. Pelo contrario, quanto mais o tempo passava, mais tínhamos certeza de que seria inviável uma recaída na monogamia e, quanto ao desafio do relacionamento, na verdade, o desafio tá mais na relação da gente com a sociedade.

Eu: Humm..fale mais sobre isso, Lázaro. Sobre como a familia vê isso.

Ele: Sobretudo da parte de Laryssa. Minha mãe é de buenas, minha irmã também.

Ela: Hum… a coisa é que a não-mono tem a ver com posicionamento político e não somente o nosso relacionamento. A gente questiona a monogamia e isso é o que gera a reflexão que não conseguiríamos ser mono.

Ele: Meu pai e meu irmão nunca questionaram nada, mas aceitaram nosso relacionamento de cara.

Ela: Minha família é bem ranzinza com isso. Eles sequer legitimam como não-monogamia o que nós temos, é como se fossemos um casal mono “comum”.

Eu: É um pensamento conservador, típico da nossa sociedade – infelizmente.

Ela: Pois é.

Ele: Um dos problemas que pensamos, nesse sentido, é com relação a filhos.

Ela: E no trabalho? Foi bem estranho também. A galera simplesmente não aceita.

 

Ele: Vi isso num grupo aqui do Face – uma mulher perdeu a guarda do filho por se relacionar com dois homens ao mesmo tempo.

Ela: Eu vi também.

Eu: Eu imagino, por isso toquei nas regras….porque as pessoas imaginam isso mesmo: que é algo de qualquer jeito, sem respeito algum ao outro.

Ele: Aí entra a segunda regra: a gente não comenta as escapulidas um com o outro. Até chegamos a conversar a respeito no início do ano.

Ela: Escapulida parece que o que a gente faz é errado…

Ele: Mas, em princípio, o acordo é esse, bocó.

Ela: Nossos relacionamentos paralelos é mais bonito u.u

Ele: Tem nada de errado, eu tava pensando nessa expressão também.

Ela: Faltou aspas, mas ta de boa… kkkkkkkkkkkkkkkk

Ele: haiouehaioehuauiehoaiheuaheouiahe

Ela: É, não comentamos! E pelas experiencias em que vazou a informação, a coisa não foi legal. Não desestabilizou o relacionamento, mas também não ajudou. Ajuda o fato de que nenhum dos dois nutre o ciúme que possa vir a sentir.

Eu: Eu acho isso muito legal..o sentimento de posse do outro não é bacana.

Ele: Nem um pouco. Nós ficamos suuuuuuuuuuuuper desconfortáveis quando acontece qualquer aperreio.

Ela: Mas a gente se ouve e isso é mais importante. Por mais que se sinta algum resquício de posse – somos vulneráveis, a sociedade imbrica isso na gente, a gente nunca deixa a coisa sem ser desconstruída.

Eu: Isso é ótimo, Lary. Desse jeito, o relacionamento é mais saudável.

Ela: Tem dado certo.

Ele: Tem dado MUITO certo.

Eu: Muito bom falar com vocês, espero que um dia eu encontre alguém assim também…pra levar a vida com a liberdade que nos é inerente.

 

Depois do bate papo, ainda houve muitas risadas. E aí, o que vocês acharam, de boa ou chato? Achei interessante vocês perceberam por meio da fala deles o quanto nossa sociedade é cheia de preconceitos e sustenta um moralismo cujas raízes deveriam ser arrancadas. Este casal lindo é a prova viva de que a liberdade entre duas pessoas é a desconstrução mais linda que pode haver. Depois dessa, aceito um brinde e duas cachacinhas no ponto. Ah, aceito uma investida também, viu? Oh, daquelas!

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Casal de liberdades e afeto