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O Encrespa Conquista surgiu em 2016. A partir desse momento, mulheres começaram a perceber que para ser linda, não é preciso seguir padrões. Assim, todas foram adquirindo identidade e transbordando beleza. O batom vermelho, azul ou roxo virou um acessório indispensável, o espelho passou a ser um amigo e o estilo tornou-se incomparável em tranças, cores e volume. No ano seguinte, 2017, a segunda edição do Encrespa Conquista foi no Shopping Conquista Sul e este ano, 2018, o tiro foi maior. No dia 15 de outubro, o Encrespa Conquista contou com 500 inscrições e grandes convidados, além de ter sido realizado na quadra de esportes da Maurício de Nassau, atraindo diversas marcas de produtos capilares.

Irlane Rodriguez, empresária do Studio O Poder do Natural, fez a abertura do Encrespa Conquista ao suscitar o amor próprio e nos questionar sobre as cicatrizes que temos. Afinal, todos nós temos marcas e, portanto, o respeito pelo outro é fundamental para se permitir e permitir ao outro ser feliz.

Palestra de Irlane Rodriguez. Fotografia: Isabelle Salgado.

 

Além dela, houve a presença das ilustres Luciellen Assis e Ster Nascimento. Luciellen Assis aborda estética e beleza negra, moda, auto-estima, empoderamento e relações étnico-raciais. Em seu discurso, rolou muito conhecimento e historicidade. Coisa mais linda da vida!

Palestra de Luciellen Assis. Fotografia: Graci Sá.

 

Já Ster Nascimento é a blogueira do Desventuras de uma Cacheada e também trabalha o empoderamento feminino. As duas gatíssimas discursaram sobre seu percurso enquanto mulheres empoderadas que alcançaram o reconhecimento nacional.

Palestra de Ster Nascimento. Fotografia: Graci Sá.

 

João Gabriel também falou um pouco sobre a influência digital na sociedade contemporânea. Afinal, conhecemos as meninas por meio de suas redes sociais e nos empoderamos pelo exemplo delas e de tantas outras por meio das diversas plataformas digitais.

Palestra de João Gabriel. Fotografia: Graci Sá.

 

A cena que mais emocionou no evento foi aquela troca de energia e retomada de lembranças daquele momento tão particular e libertador: o BC  – corte que retira toda a química do cabelo. Uma promotora da Embelleze fez o BC em uma participante do evento que estava em fase de transição capilar. Todos nós, homens e mulheres do evento, sentamos para dar força e assistir. Havia lágrimas para todos os lados, inclusive minhas. Chorei largaaaado.

Momento BC. Fotografia: Graci Sá.

 

E, por fim, não faltaram brindes. Todo mundo ganhou alguma coisa. Quem não foi sorteado, foi presenteado como o finalizador da Lollita Cosméticos. Inclusive, eu não fui sorteada e acabei ganhando esse brinde que amei porque é cheiroso e se deu bem em minha cabeleira cacheada.

Presentes para sorteio. Fotografia: Graci Sá.

 

O Encrespa Conquista é aquela coisa de você olhar para todos os lados e buscar força em cada pessoa que você ver. É sentir vontade de chamar todo mundo para conversar e tirar fotos. É sorrir para todos e todas da mesma forma. Digo sempre que o movimento é uma proposta ao amor próprio. Quem quiser colar no próximo, vem conosco que estamos o Encrespa está no Facebook e no Instagram. É claaaaro!

 

A maioria das fotografias, aqui, foram feitas por Graci Sá e dados os devidos créditos. Para a gente encerrar divando, deixo, acima, uma foto nossa. Afinal, duas lindas como essa precisam muito de um lugar ao sol por aqui.

Se eu fosse me definir, assim o faria: Mulher, negra e escrevo sobre sexo. Qual o problema nesta definição? Aparentemente nenhum, mas na prática há uma série de problemas que levam ao preconceito.

Enquanto mulher, nosso lugar no mundo já não é lá essas coisas. Afinal, toda mulher nasce predestinada a ser uma criança que precisa usar calcinha o tempo todo e que, quando os seios começam a surgir, precisa escondê-los. Ela deve crescer num mundo cor de rosa ou de cores neutras estilo aquarela e brincar de casinha e bonequinha. Toda mulher deve se maquiar, usar vestido e salto alto. Além do mais, casar e ter filhos faz parte de suas possibilidades de sucesso. Ser feminina, pelo menos, é uma exigência. Isso engloba cuidados com a pele, com o corpo, enfim, ser vaidosa.

Ser mulher já é uma grande carga e, por si só, engloba uma gama de preconceitos que a coloca no lugar de sexo frágil, delicadeza e mimimis. Mulher, muitas vezes, é aquela fútil. Sempre é quem deve cuidar dos filhos, da casa e, quiçá, do marido. Deve perdoá-los pelos erros e, ah, não pode trair nunca. Mulher que desconta chifre é vagabunda. Poderia ser qualquer outra coisa por um olhar mais amor próprio da vida, mas não – ela perde o valor porque mulher tem prazo de validade.

Mulheres negras valem menos ainda, pois carregam uma carga histórica que – somente pela cor da pele – já as incluem como inferior. Juntando esses dois fatores – mulher e negra – mais difícil fica, isto é, mais preconceito a enfrentar.

Cor do pecado quando querem elogiar; cor de sujo, de lama quando querem humilhar (outros adjetivos dependem do bom senso de quem fala, mas há muita gente no mundo sem senso algum). A mulher negra nem sempre ouve adjetivos claros de negação, mas sente em cada atitude alheia. Algumas vezes é vista como fetiche, em outras como invisível. Para se sobressair, a cor negra precisa de muitos atributos que possam também ser considerados de brancos. É preciso um esforçar-se mais.

Mais e se além de ser mulher e ser negra, ela escrever sobre sexo? Aí que o mundo acaba de vez e todos caem em cima com assédios desnecessários, com julgamos inapropriados e moralismos inaceitáveis. As mulheres que, em algum momento da vida, já são vistas como putas sem quê nem pra quê, tornam-se putas de boca cheia na boca dos falantes.

“Pra quê se amostrar e dizer que faz isso e aquilo?”. “Ela é pura pressão”. “Ali é sonsa, não vale nada”. “Finge de santinha”. “Deve dar pra qualquer um”. São essas as falas que circulam por mim aqui e acolá, sendo mostras claras de que mulher deve ficar nos contos da Disney e em romances bonitinhos. Sexo é compreendido como sinônimo de putaria e putaria como de pornografia. No meio de tudo isso, mulher negra aliada a sexo proporcionam um brega escroto, é uma coisa de louco que gente decente não entra.

Escrevo tudo isso rindo, principalmente dos hipócritas. Escrevo tudo isso aliviada e orgulhosa de ser quem sou. Ah, não falei de mais uma coisa que carrego e que é considerada uma característica marcante do negro – cabelos crespos. Mas para este terá um texto especialíssimo. Antes que comecem a colocar poréns em si mesma porque é julgada por outras formas de preconceito, lembre-se que nosso corpo não é vitrine e que somos maravilhosas independente. Histórico de preconceitos não deve nos vitimizar. Cultura mal construída não nos pertence. A gente sabe que somos bem mais do que uma dezenas de palavras ditas. Elas devem entrar por um ouvido e sair pelo outro – só assim seremos mesmo livres.

A fotografia tem um modo particular de nos falar algo, ela representa a liberdade ou repressão em que estamos inseridos. Muito mais que isso, ela representa o que há dentro de nós. Desse modo, a gente expõe o fato de sermos libertas e, devido a isso, sofremos o risco de sermos apontadas como imorais, pois o ato de se despir ou de simular as vontades do corpo ficam fixadas no clique de uma lente e podem ser vistas a torto e a direita quando colocadas nas redes sociais. Assim, algumas fotos são julgadas de forma injusta por quem sofra de recalque aguda e não consegue ver a beleza – não só externa, mas interna – na explicitez do outro.

Não é de hoje que ouço e sofro indignações. Fotos de praia, com decote, barriguinha do lado de fora ou olhar mais provocador são reprovados por uma classe advinda de gerações passadas ou por pessoas que compreendem a sua vida como um ambiente raso e cheio de limitações. Para alguns, seremos condenados ou castigados por ações que no mostrem o quanto somos lindas e nos amamos. Para nós, viver é libertar-se e isso inclui a fotografia e a exposição dela. Afinal, fotografar e não mostrar nem vale tão à pena assim.

 

Fotografia: Lu Rosário

 

Ao questionar sobre os limites na fotografia, em um bate papo entre mulheres, uma fotógrafa mostrou seu indignar-se por colocar fotos mais ousadas em sua rede social. Como forma de protesto, ela intitulou o seu álbum como “Pq a sociedade e seu puritanismo idiota me cansa!” e a descrição para este foi: “O corpo é meu! Lido com ele do jeito que quero e acho melhor! O que se Fxxx todas as pessoas que ficam se achando donas da verdade, que ninguém pode mostrar nada de si que já vem um puritano sem base e diz que ta errado! é só corpo, pele..ossos..todo mundo tem! Para quê tanto esconder!!?? MOSTRO MESMO! VERGONHA ZERO! Sou feliz assim! Me amo assim! Corpo é casca! Liberte sua mente porque corpo é o menor de nós!”

Assim como a fotógrafa em questão, eu acredito que ninguém deve se sentir afetado por manifestações corpóreas minhas. O corpo é meu e se eu o represento assim é porque tenho me sentido muito bem comigo mesma. A partir do momento que me incomodo com a exposição do outro é porque me sinto reprimida – esta não é a vida que eu quero pra mim.

 

Fotografia : Victor Paiva Leite

 

Na foto acima, publicada em homenagem ao dia da mulher, ela salienta a beleza da fotografia e agradece ao rapaz que a acompanha. A partir dessa foto, peço novamente que a olhem e me digam qual o erro contido nela. Acredito que o explícito está na técnica. Quando olhamos para a imagem acima, vemos penumbra, cuidado e intenções, mas nada está posto à mesa. E se estivesse, mulheres comuns não costumam ser fotografas estilo pornô.

Incomodar-se com o outro e agredi-lo por conta do despertar de sentidos provocados pela foto ou por um resultado da construção histórica a qual fomos submetidos é esquecer-se das lutas femininas e dos direitos conquistados. Para não sair do ditado popular, é não se preocupar com o seu próprio pé e chulé. É, mais do que um jogar de palavras minhas, não olhar-se no espelho e se reconhecer tão linda quando aquela quem foi fotografada.

A arte de seduzir, realmente, não é um tarefa fácil. Se a gente for procurar nesses sites por aí, haverá mil e uma dicas – inclusive algumas consideradas infalíveis. Entre estas, eu encontrei, no Bolsa de Mulher, dicas relacionadas a beleza e, consequentemente, a autoestima feminina. Algo que eu sempre digo por aqui é isso: uma mulher ou homem que se sente bem consigo mesmo terá uma vibração tão positiva e gostosa que qualquer um vai querer tê-lo por perto. E verdade seja dita, basta você observar ao seu redor para ter certeza disso. No entanto, além da autoestima, é preciso ter segurança no seu poder de seduzir o outro.

Não precisa se achar hiper sexy nem o pica das galáxias para ter a autoestima elevada, só é necessário saber que você tem seus atributos e que conquistar o outro é ter segurança e acreditar no seu taco. Isso tudo exige espontaneidade. Quem sabe levar a vida sem precisar forçar atitudes ou momentos, não carrega peso algum sobre suas ações e o gosto da conquista é bem mais saboroso. Apesar desses dois aspectos serem essenciais, ainda me arrisco a citar um outro para complementá-los. Então, estou me referindo a meta por você planejada.

Se não entendeu essa questão da meta, então vou explicar-lhe. Você viu aquele gatinho com um jeitinho que, na sua opinião, se completa com o seu (ou vice versa ou seja lá em quais relações forem). A partir daí, você foi conhecendo ele melhor e encontrando razões para investir, logo, se a pessoa lhe deu um sinal de reciprocidade, invista e não tem como não sair ganhando. Já se você não percebeu que o seu doar-se voltou na mesma proporção, para quê insistir? Sua investida deve ter um limite porque, caso contrário, você faz papel de trouxa e ainda volta toda fragmentada e com o tempo literalmente perdido. Já deixe isso claro para você. Nossos caminhos são melhor traçados quando bem definidos. Seduzir é, portanto, elevar a autoestima, ter segurança em si mesmo e impor limites no alcance da pessoa desejada.

Quando a gente sai de uma relação longa, a sensação é que não saberá agir de modo a atrair o outro pro seu lado mais delicioso da força. Entretanto, minha dica é não ficar com noias porque tudo tem seu tempo e você tem que deixar que ele a perceba lindamente e saiba – ainda que suavemente – que você deseja mais do que uma amizade que faz coraçãozinho com a mão. Se não houver uma correspondência após tantas dicas gentilmente cedidas por você, pula fora porque o que não falta é gente interessante no mundo. Seduzir é uma arte que, convenhamos, conhecemos muito bem… basta um desejo aflorar e pararátimbum.

“Hoje eu sei que meu cabelo era lindo quando eu era criança. Porém, eu sofria quando minha mãe ia penteá-lo e ela considerava que meu cabelo dava muito ‘trabalho’. Foi então que, quando eu tinha uns 11 anos, decidimos que iríamos aplicar um produto pra ‘reduzir o volume’”, relatou Jacquelline Fernandes – professora de biologia.

Assim como Jacquelline, Bruna Larissa, consultora óptica, comentou que desde criança, a sua mãe sempre mantinha seu cabelo cortado bem baixinho para não ter muito trabalho de cuidar dele. De acordo com Bruna Larissa, a sua mãe dizia que “era muito cheio, ‘duro’ e ‘ruim’”. Portanto, ela cresceu ouvindo isso e, aos 6 anos, sua mãe alisou o seu cabelo para diminuir o volume.

Alisar os cabelos, muitas vezes, começa assim: na infância. Uma boa parte das mães, em outras épocas, não queriam ter trabalho para pentear o cabelo da filha nem, principalmente, vê-la fora do que foi estabelecido enquanto padrão de beleza até porque, somente assim, era possível ser bonita aos olhos da sociedade. Nos últimos anos, cresceu a quantidade de produtos para alisamento em cabelos de crianças. Assim, tornou-se mais fácil discipliná-los – motivo pelos quais as mães resolvem mudar os cabelos de suas meninas.

Essa disciplinaridade se faz necessária na medida em que há uma questão histórico-cultural que constrói a nossa forma de pensar na atualidade. Romper com uma construção neste sentido é transgredir as regras da sociedade. Por isso, o termo empoderamento surgiu como uma forma de agregar valor ao fato de mulheres, hoje, aceitarem assumir seus cabelos crespos.

Empoderar-se significa perceber a dimensão política que está representada no fato, por exemplo, de assumir os cabelos crespos e de compreender o quanto há uma discriminação relacionada à sua aparência para, assim, buscar mais conhecimento e começar a entender alguns fenômenos sociais, bem como lutar contra o racismo. Afinal, os cabelos crespos estão associados ao negro.

O preconceito aos cabelos crespos

Ivanildes Guedes de Mattos, doutora em educação e contemporaneidade, escreveu o artigo Estética afro-diaspórica e empoderamento crespo no qual traçou a trajetória que possibilitou à sociedade, nos tempos atuais, ter preconceitos em relação ao cabelo crespo.

De acordo com a doutora, após a libertação dos escravos no final do século XIX, não houve um interesse da burguesia pela mão de obra de escravos libertos e, assim, a sociedade brasileira encontrou-se com um grande contingente de homens e mulheres livres ocupando diversos espaços da cidade. Colocados à margem, a população negra foi sentenciada às práticas de racismo. “A cor da pele e os cabelos foram desde então os elementos mais estigmatizados da estética negra. Cabelos crespos eram rotulados de ‘cabelo ruim’ e os de pele mais escura, adjetivados como ‘negros fedidos’ e ‘feios’”, escreveu Ivanildes.

 

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Imagem: http://www.cartaeducacao.com.br/tag/escravidao/

Desse modo, o cabelo crespo é reflexo do preconceito racial porque denuncia uma herança étnica e, em muitos casos, um histórico socioeconômico. Lara Vascouto, redatora e editora do blog Nó de Oito, salienta que é esse entendimento, ainda que inconsciente, de que o cabelo crespo é uma herança africana enquanto o cabelo branco é uma herança europeia que proporciona essa discriminação. A blogueira relembra que, durante o apartheid na África do Sul, a definição entre preto e branco era feita pelo teste do lápis em que o objeto era enfiado no meio dos cabelos e se caísse, a pessoa era negra; caso o lápis escorregasse, a pessoa era branca.

A doutora Ivanilde Guedes de Mattos, em seu artigo, ressalta: “É histórico que os negros para serem aceitos nos espaços sociais e do mercado de trabalho eram diretamente influenciados pelos padrões estéticos que beneficiavam aqueles mais próximos da estética branca. Daí o alto contingente de mulheres negras com cabelos alisados”. Desse modo, os indivíduos buscam formas de minimizar o preconceito adentrando em um padrão socialmente aceitável – neste caso, por meio do alisamento capilar.

Entretanto, nos últimos anos, isso tem mudado com o surgimento de um movimento de mulheres que trazem à torna uma discussão sobre afirmação estética a fim de que seu cabelo deixe de ser visto como algo negativo e passe a ser uma forma de combate ao racismo. “Entendo que o movimento de mulheres negras pelo empoderamento do cabelo crespo surge na contemporaneidade como um signo de apropriação de negritude anteriormente negado e silenciado pelo padrão branco de beleza”, escreveu Ivanilde.

As mulheres da geração atual, portanto, já buscam outras formas de cuidar dos cabelos das suas filhas. Magali Araújo, cabeleireira especializada em cabelos crespos, conta: “Há dois anos eu faço permanente afro em uma menina que, hoje, tem 7 anos. Volta e meia, umas duas vezes no ano, a mãe dela me procura. A mãe passava guanidina e o cabelo da menina, por muitas vezes, quebrou e caiu muito na parte da frente, então ela me trouxe e eu cortei tudo, tudo o que tava espetado e liso. Ela ficou com o cabelo curtíssimo, aí a mãe aguardou mais três meses e eu fiz a primeira permanente afro. Essa garota é uma das que saiu do alisamento e ela mesma fala: mamãe, eu quero meu cabelo cacheado. Hoje ela fala, sabe? Mas o cabelo dela é aquele que não cacheia, é aquele cabelo bem aramado, um black mesmo”.

Diante disso, surge a preocupação sobre o fato de sairmos da ditadura do liso e entrarmos na ditadura dos cachos, na qual é necessário tê-los bem definidos para que sejam aceitos. Apesar dessa preocupação, “as mães já pararam de fazer progressiva, mas elas ainda não estão sabendo o que fazer com os cabelos das crianças, então a gente ainda precisa de mais profissionais que entendam de cabelos afros”, ressalta Magali.

Ditadura do liso x Ditadura dos cachos

Falar em ditadura do liso é retomar toda a história, que foi apresentada anteriormente, para justificar a imposição que existe sobre homens e mulheres e que aponta para um alisamento do cabelo com o intuito deste ser aceito socialmente. “Todo mundo deve ter o cabelo liso – é o que é considerado bonito, elegante, sensual, atraente e bom. Já o cabelo enrolado, crespo e afro é cabelo ruim”, escreveu a blogueira do Nós de Oito.

Apesar das pessoas estarem assumindo os cabelos crespos e abrindo mão dos produtos de alisamento, tem surgido uma preocupação acerca da imposição dos cachos perfeitos cuja negação do cabelo bastante crespo e sem cachos permanece. Isso faz com que as pessoas esqueçam do verdadeiro sentido de assumir os cabelos naturais para que entrem em uma outra ditadura, a dos cachos.

O verdadeiro sentido, como a psicóloga Ludmilla Rios falou, está relacionado a construção da identidade: “Nós somos formados por partes, pela construção do perfil da mãe e do pai, então é um conjunto que vai formar o indivíduo, mas chega um certo momento em que ele começa a perceber o que é bom pra ele e constrói a sua própria identidade. Ele constrói a sua autonomia de acordo com esse momento de busca”.

Além do mais, a manifestação através do cabelo é uma forma de linguagem. De acordo com a psicóloga, “quando o indivíduo percebe que está se vestindo da forma dele e, assim, consegue ser quem ele deseja em qualquer espaço, ele formou sua identidade. Então, ele conseguiu se identificar e encontrar o seu próprio eu”.

Desse modo, o empoderamento crespo, representado por muitas mulheres e homens, salienta a beleza independente de como estão os cachos e, até mesmo, se o indivíduo prefere alisar os cabelos ou não.

 

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Lu Rosário. Foto: Acervo Pessoal

 

Sempre rolavam críticas

Sair da infância com cabelos alisados é perpetuar a ideia de que esta é a melhor solução para se enquadrar na sociedade e, assim, conseguir se relacionar melhor com as pessoas a sua volta. A própria infância, inclusive, já traz traços de uma rejeição sistemática que incide no bullyng conforme o tempo vai passando. La Lunna MC desabafou que com 8 anos já ouvia piadinhas na escola sobre o fato do seu cabelo ser cheio e crespo. A partir disso, ela passou 14 anos alisando os cabelos com os produtos que surgiam no mercado. Ela enfatiza: “eu costumava alisar o cabelo sempre que eu percebia que a raiz estava ficando alta e o cabelo natural aparecendo”.

Diante da pressão exercida diariamente entre conhecidos e amigos, a autorrejeição é uma forma de se limitar e de buscar formas de aceitação, no caso, por meio do alisamento total dos cabelos – o que inviabiliza qualquer manifestação da raiz crespa. Além do mais, quem provoca bullying é resultado de um percurso histórico que estabelece padrões de beleza para os cabelos. Jacquelline Fernandes, que nos contou ter alisado os cabelos aos 11 anos, salienta que, quando cogitou a possibilidade de não alisar mais o cabelo, a mãe a desencorajou, “dizendo que iria ficar horrível porque os cachos nunca mais voltariam”. Para completar, ela acrescenta ser mais difícil enfrentar o preconceito da própria família, principalmente da mãe. Para Jacquelline, “o preconceito de pessoas ‘distantes’ de você é mais fácil de ignorar”.

Entretanto, não é apenas no meio escolar que existe uma crítica constante relacionada aos cabelos. A proprietária da loja Virtual Cosméticos e diretora da unidade de formação estética Visage, Camila Gobira, apontou quais eram os seus pensamentos em relação ao assunto diante das exigências do mercado: “Depois que assumi um alto cargo de trabalho, comecei a acreditar que a minha imagem de chefe deveria ser lisa, comportada, contida, equilibrada, centrada, elegante. O liso era a solução”, afirmou.

Diferente de uma criança, o adulto reconhece mais claramente as suas angústias e possui autonomia para mudar o que não lhe agrada. Desse modo, Camila resolveu procurar uma profissional experiente pra cortar o cabelo e se desfazer de uma imagem que não lhe representava internamente. “Ao relatar minha angústia em me aceitar, me toquei de que essa sim seria a minha válvula de escape. Aceitar o cabelo cacheado, volumoso e descomportado era a minha forma de gritar que eu estava frustrada em ser ‘normal’ para agradar os outros”, conta Camila.

Mais do que isso, quem está intrinsecamente inserido neste contexto de cuidar do cabelo do outro também não está livre de críticas. “Eu mesma tenho dificuldade quando vou dar aula no curso de cabeleireiro profissional feminino. Você acredita que na minha última turma, elas falaram ‘poxa, seu cabelo enrolado não é legal?!’ E isso foi unânime. Toda vez que escovo elas elogiam, passam a mão e dizem ‘que lindo’”, Camila ressalta.

O mercado da beleza

Nos últimos anos, com o movimento de mulheres que estão abrindo mão das escovas e chapinhas, o mercado tem buscado se adequar a esta nova demanda. A quantidade de produtos para o cuidado dos cabelos cacheados e crespos tem aumentado significativamente, além do surgimento de técnicas de cuidados – tais como o low poo (pouco shampoo) e no poo (sem shampoo) – com base nos componentes que constituem os produtos e que podem ou não virem a prejudicar os cabelos.

 

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Bruna Larissa. Foto: Acervo Pessoal

Assim, cada vez mais as mulheres têm buscado conhecer a composição dos produtos e utilizar outros recursos, além daqueles oferecidos pelo mercado, para cuidarem dos cabelos. Dessa maneira, frutas e verduras tornam-se aliados nestes cuidados. Para Magali, o mercado ainda está se preparando: “eu acredito que o mercado da beleza ainda vai lançar produtos que vão trazer a saúde mais rápida para os cabelos. Você pode ver que há alguns produtos que ainda não conseguem trazer aquilo que as mulheres precisam na verdade, que seriam os cachos com tanta perfeição”, acrescenta.

As escolas de estética também são pilares neste contexto porque são responsáveis pela formação de profissionais da beleza. Camila Gobira, ao assumir seus cachos, também começou a investir em produtos para cabelos crespos e a se interessar pela cultura afro, técnicas de cortes e tratamentos especializados para cabelos crespos, além de ter ampliado o seu público alvo ao incluir os homens. Com mais ênfase, ela assume que “hoje, vendo meu serviço com a minha imagem cheia de atitude. Ajudo pessoas a se libertarem de modismos e de padrões estéticos”.

As amizades e as redes sociais

Como a família brasileira costuma ser tradicional e se enquadrar em estereótipos pré-estabelecidos quando o assunto é cabelo, normalmente as adolescentes e jovens costumam buscar força nas amigas e amigos para se encorajarem e assumirem os cabelos e suas origens étnicas.

Jacquelline relatou que “em 2011 entrei na Uesb e descobri um mundo diferente, conheci pessoas de todos os tipos, inclusive meninas que se amavam e se aceitavam do jeito que realmente elas eram. Meninas que me mostraram que não precisavam alisar o cabelo para se enquadrarem num padrão de beleza”. Assim, a jovem que, na época tinha 18 anos, começou a cogitar a possibilidade de não alisar mais o seu cabelo. Ela ainda completa “Jéssika Layanne, minha amiga, foi crucial nesse processo, me adicionou no grupo Cacheadas em Transição no Facebook, e cada vez, mais fui tomando consciência do que eu queria”.

Nesse sentido, a decisão acaba se iniciando por experiências que vão além do âmbito familiar e, para tanto, é necessário que os meios também favoreçam essa possibilidade de se ver no outro e refletir sobre si próprio.

No caso do estudante de Jornalismo, Joslei Sandro, as críticas foram menos negativas em relação a família e sua mãe está resolvendo assumir os próprios cabelos crespos em decorrência da atitude do filho. Além do mais, o estudante salientou que “quando você vê uma pessoa negra de cabelo crespo, você acaba se reconhecendo nela. Minha irmã também assumiu os cabelos crespos depois que deixei meu cabelo crescer”.

Os blogs e grupos nas redes sociais são fundamentais neste processo de autorreconhecimento. A blogueira Mayra Carvalho foi uma das pessoas que influenciou outras tantas jovens a se reconhecerem enquanto donas de um cabelo tão bonito. Ao retirar toda a química do cabelo, Mayra e uma amiga resolveram contar um pouco da sua sensação de liberdade para outras pessoas que passaram pelo mesmo processo e para aquelas que ainda optavam em manter os cabelos alisados. “Resolvemos falar sobre receitas, fazer desabafos e contar para todos como nosso cabelo estava lindo e crescendo a cada dia”, salientou.

O blog escrito por Mayra Carvalho e Lu Rosário chama-se Não Alisa e, de acordo com as blogueiras, o nome advém de uma duplicidade de sentido por referir-se a uma expressão popular cujo sentido não dá espaço para atos de preconceito. Além do mais, Não Alisa – como próprio nome também já diz – é uma forma de expor sua vontade de ser contrária ao liso e manter os seus cabelos com a definição com o qual nascera.

Nos diversos grupos das redes sociais, em especial o Facebook e o Whatsapp, mulheres de diferentes idades compartilham a sua experiência e imprimem sensibilidade, amor próprio e liberdade em cada publicação. Desse modo, os comentários em cada uma delas apontam para uma vontade que surge de forma mais intensa em relação ao desejo de se apresentar do jeito como elas realmente são.

O grupo Cacheadas em Transição, no Facebook, possui aproximadamente 205 mil participantes e o número de mulheres e homens interessados por esse universo aumenta a cada dia. No Whatsapp, existe o Encrespa Conquista. Este é um movimento de mulheres que surgiu em Vitória da Conquista, em 2015, e se mantém na rede social. Nesse grupo, as mulheres se ajudam em relação aos preconceitos, aos produtos capilares e as angústias do dia a dia.

Amor próprio

A mudança externa está sempre relacionada a interna. Assim, quando alguém resolve mudar o cabelo, a tendência é que o interno também passe por uma reformulação. Neste caso em questão, os cabelos recuperam as suas raízes e vão contra o processo que tem regido a sociedade.

Lorena Arruti, estudante pré-vestibulanda, acredita que sua vida mudou totalmente após retirar toda a química que alisava os seus cabelos. Isso aconteceu aos 10 anos porque ela queria o cabelo liso por achá-lo mais bonito, comportado e fácil de arrumar. Além disso, as colegas na escola tinham os cabelos menos volumosos e isso fazia com que ela se sentisse diferente. Lorena, atualmente, diz: “Eu me sinto confiante e feliz porque agora eu posso ser quem eu sou de verdade. Quando eu me olho no espelho, eu vejo uma pessoa que está bem consigo mesma, pois ela venceu a timidez e o medo de assumir o que é dela”.

Esta mudança de olhar também foi relatada por La Lunna MC, a qual afirmou que a “visão de mundo parece que mudou depois que eu me libertei da química, eu me senti mais leve, passei a amar cabelos crespos e cacheados e me senti uma pessoa completamente renovada, como se tivesse sido purificada, realmente foi algo libertador”.

 

La Lunna MC. Foto: Ian Santiago

La Lunna MC. Foto: Ian Santiago

 

A psicóloga Ludmilla Rios afirma: “Quando a gente fala desse período que o indivíduo se sente seguro mudando a sua parte física, a gente se refere a uma conquista dele. Nós temos várias crenças, que são conceitos passados pelos nossos familiares e pela sociedade, que as pessoas tomam como verdade e têm muita dificuldade de desconstruir. Através da desconstrução, o indivíduo consegue assumir a sua verdadeira identidade que vem de algo único e muito particular. Então, cada indivíduo possui a sua identidade e consegue atingir a sua autonomia”.

Não diferente do que foi dito por Lorena Arruti e La Lunna MC, Jacquelline confessou que se a mulher não estiver muito consciente do que quer e realmente fortalecida, ela acaba se arrependendo por ter se desfeito dos cabelos lisos. “À mulher sempre foi ensinado que, para ela ficar bonita, tinha que se submeter a um processo químico. Numa sociedade em que o cabelo bonito é só o liso, enfrentar toda uma concepção é REALMENTE ENFRENTAR O MUNDO”, exprimiu de forma enfática.

Para mostrar este enfrentamento e demonstrar todo este amor próprio que as permeiam, 15 meninas participantes do grupo Encrespa Conquista se reuniram para um ensaio fotográfico nas ruas de Vitória da Conquista. Bruna, uma das incentivadoras, disse que “a ideia foi mostrar que somos lindas e do jeito que somos sem seguir padrão de beleza. Por isso que cada uma foi no seu estilo e com seu jeito próprio de se vestir”.

Um dos fotógrafos, José Abisolon, contou que “foi muito interessante ser convidado para fotografá-las. Ter a oportunidade de contribuir com o empoderamento feminino é a desmitificação de que cabelo crespo é cabelo ruim”. Ele acrescenta que “durante todo o dia, as meninas estavam radiantes e trocavam muitos elogios entre si”.

Por ser uma também uma forma de enfrentamento, Joslei Sandro confessou ter assumido seus cabelos crespos como um modo de se manifestar politicamente e de incomodar as pessoas que tinham preconceito. “Apesar de ser um ato político de resistência, hoje em dia é mais tranquilo porque eu aprendi a me gostar e me reconhecer assim”.

No entanto, ainda existem muitas mulheres que se reprimem ao não se aceitarem encrespadas ou por trabalharem em lugares onde o liso é uma imposição. Para a profissional especializada em cabelos crespos, Magali Araújo, “ainda é preciso que essas mulheres mudem os seus pensamentos em relação as suas origens”. Cabe a nós, mantermos a vitalidade dos movimentos a favor dos crespos e considerar que toda beleza é válida e é única.

Falar de intimidade é sempre complicado, inclusive já tentei fazê-lo algumas vezes aqui, no Pudor Nenhum, e sempre entrei em pequenos conflitos.O fato de eu ter trazido este assunto se deu por um momento simples em que um amigo com o qual já tive relações sexuais ter pedido que eu me virasse a fim de não vê-lo se despir para entrar no banho. Nesse momento, eu pensei: Mas a gente já não transou tantas vezes e eu não já o vi nu? Diante disso, fiquei me perguntando o quão ele me via íntima dele e o quanto o fato de termos transado se diferencia do fato de nos colocarmos nus, um diante do outro, em situações cotidianas. Neste sentido, lembrei no quanto isso me era presente. Por exemplo, eu namorava e transava todos os dias com meu namorado, mas, na hora de tomar banho ou de me trocar, não queria que ele me visse porque achava que o olhar seria mais atento e perceberia que meu corpo tinha imperfeições antes não vistas. Olha que bobeira! Depois de repensar muito e me sentir mais plena sexualmente, abri mão desses pudores.

A intimidade, ao meu ver, está muito relacionada ao modo como você se vê e como entende a relação com o outro. Se você se aceita como é e tem cumplicidade o suficiente, não há porque se envergonhar da sua nudez. Se ele (ou ela) te acha gostoso(a) e vocês se dão super bem, não é porque seu corpo está mais exposto que a pessoa deixará de achar tudo isso. E outra: você é visto com a mesma atenção e com mais detalhes quando o sexo está acontecendo. Inclusive, parece até paradoxal esse despudor e pudor que existem entre duas pessoas em situações tais. Entretanto, lidar com isso não é fácil nem é brincadeira, é algo que mexe com o psicológico e que se faz mais complexo do que imaginamos. Diante do que a sociedade nos impõe, o sexo passa a ser uma forma de mostrar a própria potência enquanto ser sexual e a simples nudez torna-se algo que passa por todos os padrões estereotipados.

De tudo, eu só sei de uma coisa: precisamos rever alguns conceitos que nos cercam e compreender o quão somos íntimos de alguém após o momento que saímos do ato sexual. Diante dessa colocação, eu te pergunto: a intimidade começa quando? Pergunte-se isso. Acredito que a ausência de pudor é tudo de bom e faz muito bem.

Fazer do movimento o instante-certo. Torná-lo delicadezas do corpo e observá-lo arte. Este é o trabalho de Rebeca Reis, uma conquistense que começou a transbordar em fotografias recentemente, mas que já mostrou às redes sociais o quanto consegue desprendimentos e feminilidades frente às lentes. Tanto quanto capturar o corpo e os transbordamentos alheios, a própria fotógrafa apresenta-se diante das câmeras como uma forma de enfatizar sua autoestima. O despir e ver-se em outra projeção proporciona olhares antes não observados perante o espelho. Tal como ela mesma disse, “a fotografia é um modo de me conhecer e conhecer o feminino, a feminilidade. É meu auto-conhecimento. Além disso, o ato de fotografar é uma liberdade… no sentido de ter me descoberto e aprender a me amar”.

 

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Autorretrato

 

Diante disso, Rebeca também nos falou sobre o resultado que vê nas pessoas que por ela são fotografadas.

 

Eu vejo que cada uma tem suas limitações e vergonhas; mas, quando vou fazer um trabalho, eu procuro fazê-lo do jeito que a pessoa é. Se ela for tímida, menos luz e muita música, muita conversa e algum livro pra ela ler. Se for mais extrovertida e liberal, música..MUITA música calma pra não focar no sensual e sim no feminino.

 

Com toda essa atmosfera rítmica que perpassa os bastidores da fotografia, só penso que deve ser muito bom se deixar inebriar diante de suas lentes. Já acertamos que algumas próximas postagens minhas já contarão com seu olhar. E, para não restar dúvidas, a feminilidade tem a ver com as particularidades que a enquadram no sexo feminino. É algo bem cultural, marcante e que acaba nos apontando personalidades. Para nos encantarmos ainda mais, vamos apreciar mais algumas de suas fotografias.

 

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Vale salientar que o feminino está também em casais, mães, gravidinhas e meninos. O trabalho de Rebeca Reis é maravilhoso. Quer quiser conhecer um pouco mais e também se permitir fotografar, acesso a Fan page Guardando Momentos dessa musa. Ela fotografa em Vitória da Conquista, na Bahia, e, assim que tiver um tempinho, caio nas garras dela. Já que me inspirei um bocado por aqui, deixa eu ir ali escrever um próximo texto e suspirar.