Sem Tabus

NOS BASTIDORES DOS MOTÉIS

A palavra motel (motor + hotel) surgiu em 1925 quando um arquiteto norte-americano projetou um hotel para motoristas que estivessem viajando na rodovia que liga São Francisco a Los Angeles, na Califórnia (EUA). Já no Brasil, a proposta do motel surgiu de forma diferenciada na década de 1960 porque, em alguns estados, policiais ficavam escondidos contando o tempo de hospedagem de um casal e, na saída, autuavam os amantes e o estabelecimento por crime contra os costumes – bem empata fodas.

Para fugir à vigilância policial, donos de hotel buscaram inspiração nos Estados Unidos e, assim, na estrada de Itaquaquecetuba, em São Paulo, surgiu o Motel Playboy para casais que queriam se hospedar por pouco tempo e, assim, sair com suas amantes sem medo de gozar e ser feliz. Como já sabemos, eles deram super certo.

Ostentar numa cama redonda e fazer uma performance frente aos espelhos é sem pareia. Porém, o grande fluxo de pessoas nos deixa com aquela pulga atrás da orelha – principalmente em relação à higienização. Além disso, os bastidores dos motéis e as histórias que são vividas lá dentro nos deixam curiosas.

Para matar algumas dessas curiosidades, estou com uma mulher que, durante 7 anos, trabalhou em motéis. O nome dela será mantido em sigilo e, para não ser uma pessoa sem nome, eu a apelidei de Amanda. Confira o bate-papo!

LU ROSÁRIO: Como foi a sua primeira experiência trabalhando em motel?

AMANDA: Trabalhar em motel foi a melhor experiência da minha vida. Lá a gente vê de tudo e aprende muito. Eu tinha vergonha de tudo, para falar a verdade. Hoje em dia, não tenho mais vergonha de nada. Eu consigo falar sobre sexo com qualquer pessoa e em qualquer lugar,

LU ROSÁRIO: Playlist de motel tem uma fama que vai longe, mas, hoje em dia, ainda existe um padrão ou as pessoas inovam com a possibilidade de escolher suas próprias músicas?

AMANDA: O motel que eu trabalhava tinha todo tipo de música. Eu colocava a que eu queria em meu plantão e escolhia entre romântica e internacional, mas os clientes geralmente ligavam e pediam as músicas que eles queriam. Às vezes o motel estava lotado e, muitas vezes, muitos ligavam. Eu anotava por ordem de ligação e ia colocando a música, normalmente era pagode, romântica, brega, reggae. Na verdade, pediam todo tipo de música.

LU ROSÁRIO: Eu sou ótima para esquecer as coisas, acredito que em motel isso deve ser bem comum. Como funciona com os perdidos em motéis?

AMANDA: Os clientes esquecem muitas coisas mesmo. Quando a camareira acha algo, ela coloca em um saquinho com a data, o número do quarto e o horário de entrada e saída do cliente. Os objetos mais encontrados, em primeiro lugar, são celulares e, em segundo, relógios. Mas esquecem de tudo.

LU ROSÁRIO: Como funciona o movimento nos corredores dos motéis?

AMANDA: Pra gente é normal, a gente faz tudo, trabalha normal só que em silêncio..até o andar tem que ser pisando em plumas pq n pode ter barulho para as pessoas dos quartos não nos ouvirem.

LU ROSÁRIO: Fico com a sensação que os funcionários ouvem e veem tudo. É verdade?

AMANDA: A gente não vê nada, mas ouve tudo, até mesmo a respiração e a força da penetração.

LU ROSÁRIO: Sobre aqueles espelhos, passam pela cabeça que tem alguém vendo atrás. E aí?

AMANDA: Os espelhos tem uma parede atrás, não tem câmara nem tem como a gente ver. A gente pode por câmera nos corredores, mas dentro não. Pode fazer as coisas tranquilo que não tem ninguém vendo.

LU ROSÁRIO: Ouvir o barulho dos casais dá tesão ou o funcionário passa a achar “um barulho qualquer”?

AMANDA: Pra falar a verdade, quando cheguei lá, achei meio estranho. Mas a gente acaba acostumando com o barulho que se torna normal. O costume é tanto que, para chamar a atenção da gente, tem que ser uma coisa muito, muito diferente. As meninas que vão pra lá e acham muito estranho, acabam não ficando porque ficam com vergonha. Aí saem do emprego e ficam em casa porque, às vezes, os maridos não deixam continuar.

LU ROSÁRIO: Terminou um cliente. O que acontece com os lençóis da cama e as toalhas?

AMANDA: Os lençóis da cama são retirados e as toalhas trocadas para cada casal que entra. Geralmente são duas toalhas de banho, uma de rosto e um piso que fica no banheiro. As toalhas vem empacotadas individualmente da lavanderia. São duas por casal. Se precisar de mais toalhas, liga pra recepção e pede uma outra que é cobrada uma taxa extra dependendo do motel.

LU ROSÁRIO: As camas e colchões também são higienizados com alguma regularidade?

AMANDA: São porque as camas geralmente são redondas e feitas de concreto, já o colchão é todo envelopado com plástico que, na verdade, é um plástico chamado courino. Quando o cliente sai, geralmente a gente tem que levantar o colchão para ver o que é que tem embaixo porque geralmente eles levam pepino, banana… essas coisas. Quando eles saem, ficam com vergonha de jogar na lixeira, por isso jogam debaixo da cama. Então toda vez tem que levantar a cama pra ver o que é que tem debaixo e depois a gente passa um pano úmido com água sanitária antes de cobrir com o lençol limpo. Agora aquela limpeza geral, a gente só faz na hora de entregar o plantão. Cada plantão dura 8h.

LU ROSÁRIO: Como é a higienização da banheira de um cliente para o outro?

AMANDA: A gente esvazia a banheira, depois pega uma esponja com sabão e água sanitária, passa nela todinha, joga um pouquinho de água e seca ela toda. Se o cliente for usar a banheira, ele liga e usa com as coisas que tem lá, senão fica seca. Ficando seca, a gente não joga água nem nada, só passa um pano pra ela continuar limpa.

LU ROSÁRIO: Como funciona a higienização de piscina de motel? Em dias “festivos”, é melhor não usar?

AMANDA: Onde eu trabalhei não tinha piscina, mas na verdade ele fazia parte de uma rede de 5 motéis. Dentre eles, tinha um de luxo. Esse que eu trabalhei não era vagabundo nem muito chique. No motel que tinha piscina, o cliente precisava ligar e reservar. A piscina só era limpa uma vez. Por exemplo, se você quiser para domingo, eles limpam no sábado. Para isso, há um serviço especializado. Após ser alugado, geralmente não alugam depois (apenas dois ou três dias após).

LU ROSÁRIO: Com que freqüência a água da piscina é trocada?

AMANDA: Como eu falei, depende de como vai alugar. Mas é feita uma limpeza normal, agora trocar a água eu nunca vi.

LU ROSÁRIO: Vocês lavam mesmo os banheiros, tipo com sabão, água sanitária ou só água e desinfetante? Quais produtos de limpeza usam, principalmente na banheira?

AMANDA: Nos dias corridos, a gente lava só com sabão e água sanitária. Na hora de entregar o plantão, se estiver super corrido, a gente seca, tira o lixo e passa um pano úmido com agua sanitária apenas no vaso sanitário. A limpeza de verdade, para ficar tudo ok, é somente na hora de entregar o plantão. No quarto, geralmente a gente pega um pano com o rodo e vai tirando o lixo já passando o rodo ao mesmo tempo.

LU ROSÁRIO: Já presenciou cenas de violência?

AMANDA: Já, mas só quando as esposas estão sendo traídas. Elas seguem o marido e entram no motel como cliente. E se ela achar o carro do cliente, aí elas quebram a porta e fazem o maior barraco.

LU ROSÁRIO: Qual a situação mais hilária que você já viu ou ouviu?

AMANDA: Só presenciei uma vez. Um cliente queria bater na acompanhante dele porque pagou o programa (R$200,00) e queria que ela devolvesse metade do dinheiro alegando que não ter feito o serviço completo por não ter conseguido gozar.

LU ROSÁRIO: Qual o casal mais diferente, estranho ou inusitado que você já viu?

AMANDA: Na verdade, não sei dizer porque tem de tudo e tudo a gente acaba vendo como normal.

LU ROSÁRIO: Qual o fato mais estranho/inusitado que rolou no motel em seu horário de trabalho?

AMANDA: Pra mim, o que achei mais estranho, ajudei e me arrependi depois foi uma acompanhante que me pediu um táxi e também pediu pra sair pela porta do corredor porque ela estava se escondendo. Abri a porta e deixei ela na recepção comigo enquanto o táxi chegava. Ela me disse que estava se escondendo porque a irmã seguiu o marido e estava na porta do motel, ou seja, ela estava no quarto com o cunhado. Como a irmã estava na porta do motel, ela saiu de táxi no porta mala para a irmã não ver. Achei estranho e ajudei, mas me arrependi muito. Não achei correto.

LU ROSÁRIO: O pessoal que trabalha em motéis recebe convite dos frequentadores?

AMANDA: Tem muitos que não deixam de dar uma cantada. Quando a gente atende o telefone, ficam se insinuando: Que voz gostosa! Vem pra cá fazer companhia pra gente. Perguntam também se eles voltarem e alugarem um quarto, se a gente entra no quarto para ficar com eles. Comigo era normal, eu cortava na hora.

LU ROSÁRIO: Em casos de abuso infantil, pedófilos que levam crianças, como deve ser a postura do estabelecimento?

AMANDA: Lá onde eu trabalhava, nunca aconteceu isso. Na entrada, tem que pegar a identidade dos dois que estão no carro e dá pra a gente ver a pessoa. Tem todo um processo pra que ele consiga entrar no motel.

LU ROSÁRIO: Vocês anotam as placas dos veículos que vão ao motel?

AMANDA: São anotadas placa, marca do carro, horário que entrou e saiu. Também anotamos o que consumiu e tudo é arquivado no computador (temos um na recepção e outro na portaria). Quando a gente entrega a chave do apartamento, pegamos a placa do carro e temos arquivado quantas vezes aquele veículo esteve no motel naquele mês ou naquele dia. É arquivado anualmente.

LU ROSÁRIO: Você sabe dizer qual a diferença entre motéis simples ou mais chiques?

AMANDA: Eu trabalhei em um motel mediano, que é onde dá mais gente. Eu não imaginava que haveria tanta gente em motel e é incrível que não tem um horário especifico para isso. É 24h lotado. É como eu sempre digo: Ser amante dá muito dinheiro porque o pessoal reclama, mas só vive em motel.

LU ROSÁRIO: E você tem alguma curiosidade para nos contar?

AMANDA: É curioso que tem como saber quem é casado, amante ou namorado. Os melhores são os amantes, namorados são mais ou menos, casal é um tedio. A gente consegue saber tudinho quando está lá dentro.

LU ROSÁRIO: E sobre as comidas?

AMANDA: É melhor ir pra casa sem comer no motel porque comida de motel é nojento porque pode acontecer da mesma pessoa que limpa os quartos ser a mesma que faz a comida. A higiene não é uma coisa boa. Se você quer comer bem e direitinho, come em um restaurante ou come em casa porque comida de motel é uma porcaria em relação a higienização. É gostoso, bonitinho, dá vontade de comer, mas eu aconselho a não comer.

Quando você entra no motel, tem uma mesinha tipo um barzinho e umas taças que é onde você se serve se quiser alguma coisa do frigobar. Isso é outra coisa que não aconselho a usar porque é muito difícil a gente pegar e levar para a cozinha pra lavar. Geralmente só passamos uma água na pia do banheiro, secamos e cobrimos com papel filme pra dizer que foi higienizada, então é uma coisa que não aconselho a usar.

LU ROSÁRIO: Eita, Meu Deus, ainda bem que eu nunca como em motel. Normalmente saio de lá e vou comer noutro canto. Hahahaha. Eu quero super agradecer a você pela disponibilidade e toda atenção. Todos os esclarecimentos foram muito bons e já nos fazem ver o motel sob um outro ponto de vista. Muito obrigada mesmo!

Despudoradas e despudorados, espero que vocês tenham curtido essa leitura. E se ainda tiverem dúvidas, deixem aqui nos comentários. Se quiserem compartilhar histórias de motéis também, fiquem à vontade. Será sempre uma delícia ler vocês!

Lu Rosário

Jornalista. Baiana. Leonina. Feminista preta. Apaixonada por tudo o que diz respeito a sexo e sexualidade. Palavras e fotografias são suas taras.

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