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Lembro-me de um dia, procurando sobre a palavra puta pelo Google, ter me deparado com Gabriela Leite – uma grande mulher que decidiu ser prostituta e lutava pelos direitos das mulheres que atuavam neste ramo. Achei super interessante e passei a acompanhá-la em entrevistas. Quando ela faleceu, em 2013, fiquei extremamente triste porque as profissionais do sexo perderam uma exímia representante e porque eu perdi a oportunidade de conhecê-la. Em 2009, Gabriela Leite havia escrito o livro “Filha, mãe, avó e puta” que só foi lido por mim este ano.

O livro configura-se como uma autobiografia. Gabriela Leite conta sua trajetória de moça rebelde e personalidade forte que, às vezes, permitia-se desobedecer sua mãe. Com pai boêmio, ela acreditava ser mais parecida com ele até concluir o quanto sua mãe a inspirou em fortaleza. Mãe de dois filhos, não exerceu o seu lado maternal como gostaria. Enquanto puta, trabalhou como deveria. No exercício da sua profissão, passou por três lugares: Boca do Lixo em São Paulo, na zona boêmia em Belo Horizonte e Vila Mimosa no Rio de Janeiro.

Inteligente, Gabriela Leite possuía um referencial bibliográfico muito vasto e havia sido aprovada em segundo lugar no curso de Filosofia da USP. Foi aluna de grandes referências, tais como Marilena Chauí e Antônio Cândido. Porém, transferiu seu curso para Sociologia e depois optou por largá-lo. Em época de ditadura, ela nos conta os percalços, a liberdade sexual e os estigmas das décadas de 70 e 80. A fim de viver uma vida livre, leve e solta, Gabriela saiu da casa dos pais e decidiu ser prostituta. Ela gostava muito de homens, de sexo e de dinheiro. Além do mais, ela gostava de fazer parte de uma minoria menos abastada. Lidava com homens simples, que queriam aliviar-se do stress por meio de uma rapidinha ou de uma conversa em forma de desabafo.

A escritora conta-nos a realidade dos lugares onde trabalhou e nos situa, durante todo o tempo, no contexto histórico da época. Acometida por problemas na vesícula e hepatite, ela começou a refletir sobre a marginalização que as profissionais do sexo sofriam e, então, após voltar à rotina resolveu dar as caras e falar em público pela primeira vez. A partir deste momento, a prostituta passou a ter voz e, aos poucos, o movimento foi tendo representação. Gabriela Leite passou a ser um grande nome quando o assunto era prostituição, tornando-se referência em estudos relacionados ao tema.

Ela viajou por vários estados brasileiros e por vários países em eventos que abordavam a prostituição. Fundou a ONG Davida e foi idealizadora da grife Daspu. Largou a profissão de prostituta para investir em projetos sociais e defender com unhas e dentes os direitos das suas ex-colegas. Casou-se com o jornalista Flávio Lenz Cesar, um amigo que tornou-se o homem da sua vida. Sofreu todos os preconceitos e se afirmou em todas as suas andanças e lutas. Foi uma mulher de fibra.

O livro Filha, mãe, avó e puta não tem muitos rodeios. Bem escrito, ele nos contextualiza e sensibiliza. Acredito que vale a pena, sim, ler. Por meio desta leitura, aprendamos a julgar menos o outro. Cada um tem a sua história, mas muitas delas podem se entrelaçar e isso nos permite uma bela reflexão. O livro pode ser encontrado em grandes livrarias ou na Estante Virtual, onde o comprei. Leia e compartilhe suas impressões conosco. Permita-se a esta experiência de leitura.

Sempre fui daquelas que não gostavam de assistir séries porque achava chato esperar por uma continuação infinita de episódios. Este ano, apresentaram-me “O Negócio” – uma série que envolve um universo que acho bem interessante, o do sexo, e algo que tenho curiosidades de estudar e conhecer – estratégias de marketing. De forma bem inteligente e, por enquanto,em apenas duas temporadas de treze episódios, Luca Paiva Mello e Rodrigo Castilho apresentam três mulheres que se unem para obter sucesso como profissionais do sexo.

Rafaela Mandelli, Juliana Schalch e Michelle Batista, da esquerda para a direita.

Rafaela Mandelli, Juliana Schalch e Michelle Batista, da esquerda para a direita.

Uma produção da HBO em parceria com a produtora Mixer, a primeira temporada d’O Negócio apresenta as personagens principais e a colocação delas no mercado até alcançarem um patamar onde a concorrência passa a pirateá-las. Vítimas da pirataria, a segunda temporada surge para mostrar como enfrentaram os desafios e se reposicionaram no mercado como profissionais de sucesso.

Como sabemos, a prostituição – apesar de ser a profissão mais antiga do mundo – é considerada um tabu na sociedade contemporânea e, com isso, sofre preconceitos. Para Karin (protagonizada por Rafaela Mandelli), esta poderia ser vista com outros olhos já que traz benefícios para a família por meio da lógica de satisfação pessoal. Este satisfazer-se justifica-se pelo prazer carnal e pela liberdade que o outro tem de falar de si sem ser julgado ou até mesmo de poder estar em um lugar sem se sentir pressionado e, depois, poder voltar para casa sem alguns quilos nas costas.

Eu diria que mais do que assistir cenas de sexo e explicações que apontam a prostituição como benéfica à sociedade, a série permite termos um conhecimento maior de marketing e nos seduz a aplicar os conceitos apontados nesta em algum empreendimento nosso. De forma bem didática, a gente acaba ampliando nosso olhar sobre o consumo de grandes marcas e passamos a ser mais otimistas quando o assunto é aumentar as vendas e obter uma ressignificação no mercado. Portanto, amores, como não amar essa série? Além de ser bem perspicaz, é brasileira e isso me deixou com muito orgulho.

O último episódio foi exibido em novembro de 2014 e o terceiro episódio já está a caminho, estou em cólicas esperando. Para assistir as duas primeiras temporadas, acesse o HBO GO que você as encontrará completas. E para matar, ainda mais, a curiosidade desta série, vejam este vídeo (abaixo) publicado pelo canal HBOnoBrasil e curta a fan page O Negócio – HBO para ficar por dentro das atualizações. Delicie-se!