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Dizem que eu sou puta porque visto roupa curta e, por isso, dizem também que estou mostrando o útero. Dizem que sou puta por usar um decote e deixar saltar os seios porque acreditam que meu salto me deixa desajeitada e meu cabelo jogado de lado é digno de uma prostituta – afinal, há estereótipos que perseguem muitos tantos. Se ser puta é vestir e jogar o cabelo como eu gosto, então sou puta sim.

Dizem, também, que sou puta em me esconder sobre roupas demais e depois falar putaria. Acreditam até que meu boquete dá de dez em qualquer profissional que abocanha diariamente. Que seja, que assim eu seja puta. Dizem, inclusive que meu batom em minha boca carnuda é, simplesmente, para chamar a atenção e coisa de quem é puta sem tirar nem por. Como eu já disse, se for assim, sou puta mesmo.

Minha putice está na boca dos desconhecidos que entendem minha escrita como pura pornografia. Se eu sou puta porque escrevo sobre sexo, coloco fotos semi-nua e escolho outras gozadas para aqui expor, que eu seja uma putinha com nome e sobrenome. Sou puta de classe com pedigree: não erro nos pontos, nas palavras e nas rimas desencontradas. Se tudo o que escrevo é falar demais e é me achar demais, então sou puta ao quadrado. E se toda provocação não se manifesta concreta, eleva à potência toda minha putice e me completa com um descarada – esta cabe no mesmo conjunto e sai da boca às cusparadas.

Eu sou puta porque tenho cara de santa, cara de ingênua e cara de menina. Seria puta, também, se tivesse cara de vadia e lambesse a ponta dos dedos como se lambe o sexo alheio. Sou vista como puta como quase toda mulher. Sou vista como puta como você pensa não ser. Sou apontada, mesmo sem ver. E minha mãe que nem faz parte da história, vira puta também.

Sabe aquela coisa de que todo homem deve pagar as contas quando o casal sai? Pois é, esse é o questionamento básico que separa uma mulher independente de todas as outras. Em nossa sociedade, uma coisa é certa: ao homem, cabe o papel financeiro. Ele quem deve pagar toda a conta em cada saída de ambos e, ao morarem juntos, ele quem deve pagar todas as despesas da casa. O pior é que isso acontece, ainda que ela venha a trabalhar. Isso ocorre devido a aceitação da mulher e à cultura que coloca o homem em uma situação de privilégio.

Você talvez diga que não há um privilégio nisso aí, mas pensemos bem: nossa sociedade é capitalista e a máxima acaba sendo a do “manda quem tem dinheiro”, então por que não compreender tais circunstâncias desse modo? Mas não duvido nada de que você rebata isso me dizendo que a mulher ganha menos do que homem e blablabla, só que eu fico me perguntando: Você concorda que seja assim? Por que não lutar para que isso mude? Além do mais, ganhar mais te impede de dividir os gastos? Nesse sentido, sempre pensei que se os dois comeram, então por que o homem precisa arcar com todos os custos sozinho? Pensar dessa forma, aponta-nos como independentes, ou seja, não precisamos do outro para sair de tal lugar ou adquirir algo. A gente simplesmente paga o que consumimos e acabou, a parte dele é dele.

A mulher independente, portanto, assusta porque ressalta a não acomodação da mulher e rompe com a ideia de que o homem é o dono do pedaço. Ela sabe que, a qualquer momento, pode pagar a sua parte, levantar e ir embora se a conversa estiver chata. Sabe, também, que não depende dele para nada e que suas decisões podem ser tomadas na hora que der e vier. Ele, sabendo disso, passa a ser mais cuidadoso no seu trato e compreende que o fato dela ser tão livre exige mais dele. E, esse mais, nada tem a ver com as questões financeiras porque ela também opta dentro das suas possibilidades.

Quando uma mulher é livre, em todos os sentidos, não precisa brigar por pensão – que, inclusive, é o dinheiro que ele recebia para mantê-los. Nesse contexto, romper os vínculos acaba sendo uma tarefa mais fácil. Não precisa, também, prestar contas nem pedir nada a ninguém. Tudo o que der vontade, faz. Afinal, o bolso é seu e você coloca ou tira a mão dele quando quiser. Para você ver: a independência está totalmente ligada ao dinheiro, é inevitável. Vincular-se a alguém por causa disso é prender-se a ela. Para quem submete, isso é bom porque tem o outro na palma da mão. Para quem está submetido a isso, não é tão gostoso já que a dependência traz outros aspectos que não são nada benéficos para si mesmo.

Se ser assim, liberta do homem, acarretar em afastá-los, então não se preocupe porque homens que têm medo de viver em par de igualdade não valem a pena. Para toda panela, existe uma tampa. Logo, você achará a sua e a relação entre os dois será bem melhor e mais sadia. Submissão é uma palavra que, como eu sempre digo, só é legal no sadomasoquismo. Fora isso, sejamos cúmplices um do outro e deixemos de bestage.

 

Gente, vocês viram essa propaganda publicitária da Bombril? Em uma das falas, Ivete Sangalo diz que “A gente arrasa no trabalho, faz sucesso o dia todo e ainda deixa a casa brilhando. É por isso que toda brasileira é uma diva”. Essa concepção construída historicamente sobre a mulher tem buscado outros rumo e se desmistificado cotidianamente. Ainda assim, é uma tarefa difícil porque, na mulher, está encrustada a ideia de que a casa e os filhos sempre serão obrigação dela.

Por meio de movimentos feministas, algumas conquistas têm sido alcançadas ao longo do tempo. Para quem não sabe, a mulher não tinha direito de fazer sexo por prazer nem de votar em um governante para o país. A coisa era barra pesada. Para ela, os papeis eram apenas de reprodução e dona do lar. Com a necessidade de ir trabalhar fora, tais papeis permaneceram, ou seja, não houve uma divisão igualitária do trabalho nem um repensar sobre a mulher. Numa sociedade machista, não haveria razão de se mudar isso, não é? Veja a propaganda abaixo!

 

 

A mulher, portanto, passou a ter uma tripla jornada de trabalho. Para quem pensa que isso é moleza, engana-se. Trabalhar fora e manter a casa arrumada não é um trabalho fácil e não deve considerada a razão para sermos divas. Ser diva é se mostrar mulher, independente de como se lida com as tarefas diárias. Propagar uma ideia, tal como foi feito pela marca, é afirmar que tais papeis devem prevalecer e, praticamente, demonstrar que a gente está satisfeita com isso e se achando um sucesso.

Quem disse que amamos isso? A gente se acaba com uma rotina dessa. Se pra ser diva for assim, preferia não ser nada. O tempo passa que a gente nem vê. O cansaço nos toma. Quando chega a noite, ainda querem uma noite de sexo selvagem como se nosso dia tivesse sido tranquilo (até porque tarefa de casa não é considerada quase nada no imaginário popular). A rotina da mulher nunca precisou e mereceu ser essa. Todos nós temos braços e pernas iguais para dividirmos as tarefas do mesmo modo, sejam elas domésticas ou não. Todo mundo consegue lavar prato, limpar banheiro e passar pano na casa do mesmo jeitinho.

A partir disso, Dani Calabresa – nesta propaganda – também disse “Toda mulher é uma diva, e todo homem é ‘diva-gar’ [devagar]”. Com o orgulho ferido, homens queixaram-se e consideraram a campanha uma ofensa. Com isso, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) abriu um processo para julgar o caso. Em vez de as mulheres tomarem essa atitude, os homens que pegaram a frente. Oh, esse assunto dá pano pra manga. Disse o que acho e agora quero ver o que vão continuar  falando por aí porque, sinceramente, se os meios publicitários agem assim é porque ainda será preciso muita luta para mudar este cenário. Desconstruir essa ideia a respeito de homens e mulheres é mais do que preciso, é essencial.