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Ela tem 20 anos e uma filha de 5 aninhos. Começou a trabalhar profissionalmente com sexo aos 19 anos. Linda, alta e inteligente, encontrou no corpo uma forma de ganhar dinheiro e cuidar da pequena. Foi casada, o ex-marido não arcou com as suas responsabilidades e, assim, preferiu deixá-lo de lado e seguir este caminho: o do sexo.

Preferiu não revelar o nome, afinal, o preconceito está em todos lados e ser prostituta não faz com que ela perca seus valores e dignidade. A entrevista, hoje, é com Holly Golightly – uma garota de programa que está mais para uma bonequinha de luxo, apesar de viver vários meandros da profissão. Diferente da personagem do filme, ela não está decidida a se casar com um milionário. Entretanto, é tao bonita quanto e já teve seus envolvimentos inesperados.

O bate papo de hoje é com esta moça de nome fictício e que causa burburinhos por onde passa, inclusive em Vitória da Conquista – na Bahia. Então, vamos começar?

Eu: Boa tarde, Holly. Primeiramente, por que você começou a trabalhar com prostituição?

Ela: Eu entrei nessa vida pelo dinheiro, este foi o principal motivo. Por eu ter uma filha e o pai dela não ter dado assistência, o pessoal fala: Ah, por que não coloca na justiça? Mas o pai tem que dar as coisas sem negócio de justiça, pois é o sangue dele, é filha, entendeu? E eu não sou muito orgulhosa para isso, então, eu não fiz questão de por ele na justiça. Eu comecei a fazer programa através de uma amiga. Eu andava muito com pessoas que faziam e, por isso, já era taxada desde cedo. Comecei com 19 anos e completou um ano hoje, então eu fui gostando do dinheiro que não é fácil, mas é rápido.

Eu: Sua família sabe sobre o assunto?

Ela: Minha mãe sabe, meu pai não. Minha mãe sabe porque achei melhor ela saber da minha boca. Ela não aceita, mas também não vai me crucificar porque é mãe.

Eu: E quanto a sua família?

Ela: Fico, no máximo, um mês quando quero juntar dinheiro. Ela me cobra dizendo “Mamãe, to com saudade”, “Vem me ver”, “Quero te ver”. Então, quando quero passar um tempo em casa, trabalho 2 meses para juntar uma grana boa e vou pra casa. Mas quando estou em casa,  passam 15 dias e já é automático, fico agoniada pensando que tenho que voltar a trabalhar porque o dinheiro está acabando. Para ter um dinheiro a mais, eu vendo Mary Kay, faço makes, inclusive fiz 2 cursos em São Paulo. Quando vou trabalhar em uma boate, já ganho vendendo produtos e produzindo as meninas. É bom porque eu tiro um dinheiro a mais, não faço só programa.

Eu: Após começar a ser garota de programa, como ficaram as suas amizades?

Ela: Meus amigos fingem que não sabem e eu acho até melhor porque mantém o respeito. “Ah, ela trabalha e tudo mais, só que a gente não tem nada a ver com a vida dela já que ela continua a mesma pessoa”. Eu acho que amizade não é o que a gente tem, mas o que podemos oferecer nas horas difíceis para um amigo. Sou bem liberal com eles e, às vezes, digo as coisas. Não chego a citar que sou garota de programa, mas deixo bem aberto q não sou besta e que acho melhor “vender” meu corpo do que estar com um e com outro todo dia. Tem mulher que todo dia está com um ou com outro e a fama está linda. É melhor ser mal falada com o dinheiro no bolso.

Eu: Para ter um relacionamento sério com alguém, é possível?

Ela: Ai, meu deus! Não tem. É difícil, sabe? Eu mesma não namoro hoje porque sou bem sincera. Se eu for me envolver com alguém, vou dizer o que faço e a pessoa não sei se vai aceitar porque 99,9% não aceitam e não querem tirar ela dessa vida pra sustentar e dar uma vida melhor.

Eu: Mas você nunca chegou a se envolver com um cliente?

Ela: Desde Abril, eu tenho um romance com um cliente que está se desmanchando hoje. Atualmente, a gente não tem muito contato. Foi uma coisa muito boa, mas eu não quero mais. Ter romance com cliente é a pior coisa que tem porque eu acho que se um cliente gostar de você, ele realmente vai querer te tirar daquela vida em vez de ficar esperando uma atitude sua. Só que ele sempre esperava, teve uma hora que cansei e chutei o balde. Quis trabalhar porque, na idade que estou, é melhor conquistar algo pra mim do que buscar um relacionamento. Digo isso não só pra mim, mas pra todas as meninas novas. Nada de relacionamento, vai procurar estudar, abrir um negocio,  alguma coisa pra bater no peito e dizer “É meu, ninguém me deu”.

Eu: Há um ano, quando você começou, como foi?

Ela: No início, flores, como toda relação. Eu encaro isso como uma relação. Foi flores, pois ganhei muito dinheiro. Eu fechava o mês em 16 a 20 mil. Hoje, como essa crise, a gente trabalha de 1 mês a 45 dias pra tirar 8 a 7 mil reais, mas no início é flores.

Eu: Com todo este dinheiro no início desta sua atual carreira, houve algum deslumbramento?

Ela: Logo quando entrei nessa vida, gastava muito dinheiro com marca, com grife. Todas fazem isso. Entrar numa loja e comprar um vestido de mil, para mim, era normal. Hoje, quando entro em uma loja e vejo um vestido de 200 reais, pulo bem longe. “Ai, meu Deus, eu tenho um compromisso, eu não posso comprar desse jeito”. Este ano, coloquei silicone nos seios e paguei a cirurgia toda à vista. Estava chorando e a moça sem entender. Quando ela se ligou que eu era garota de programa, olhou pra mim e me deu os parabéns, dizendo que é bem difícil juntar dinheiro.

Eu: Esta cirurgia nos seios foi, especificamente, por causa da profissão ou por uma razão pessoal? Mudou o quê depois da aplicação do silicone?

Ela: Eu tive minha filha e amamentei durante 3 anos. Nada ficou no lugar, então eu ficava com vergonha. Sem o silicone, eu trabalhei muito, mas, depois dele, meu ego subiu e eu fiquei outra pessoa. Eu queria muito ter colocado e consegui, graças a Deus. Foi uma realização pra mim!

Eu: Falando em silicone nos seios, não é permitido o uso de drogas em nenhuma cirurgia. De acordo com as pessoas, a prostituição está completamente relacionada às drogas. É verdade?

Ela: Já cheguei a usar tudo: papel, êxtase, bala, maconha, cocaína. Cheguei a ficar 4 dias usando cocaína em seguida e sem almoçar, só cheirando  pó. Tem 3 meses que fiz a cirurgia e, antes dela, o médico me recomendou parar de usar fumar. Como era meu sonho colocar silicone, pensei: “Ou eu tenho silicone ou eu vou ficar acabada na droga”. Eu acredito muito em Deus, independente de trabalhar nesse ramo que o povo diz ser que coisa do “demônio”. Eu acredito muito Nele e Ele me tirou das drogas. Hoje eu posso ver a pessoa na minha frente usando e eu n quero. Acredito que existe vício porque eu era muito dependente da maconha. Trabalhava a noite toda de 9h no salto ate 4h a 5h da manhã. Quando a casa fechava, eu tinha que fumar uma maconha pra dormir, já era meu psicológico. Eu não fumava, eu “comia com farinha”, como diz o ditado popular.

Eu: Há uma real prevenção às doenças sexualmente transmissíveis com o uso de preservativo? Vocês fazem exames regularmente?

Ela: Uso camisinha constantemente em todas as relações. Tem umas que, se pagar tanto a mais, faz sem. O problema é dela. Eu sempre me preveni no oral e tudo. Quanto às doenças, eu tiro por mim e pelas colegas de trabalho. Fazemos exames de 6 em 6 meses ou de 3 em 3 meses. Quando acontece, eventualmente, de algum preservativo estourar, elas já vão no médico e faz exame de HIV. É bem tranquilo, mas tem mulher que não se cuida e dar a torto e a direita, mete de qualquer jeito. Tem boate que exige os exames porque tem muitas menins por aí doentes pelas DST’s. As camisinhas são oferecidas pelas casas. O postinho deixa as caixas fechadas, mas eu gosto da Jontex. Gosto de usar a minha, por isso compro três quatro pacotes, pois acho as outras frágeis.

Eu: No início da entrevista, você disse que o “dinheiro não é fácil, mas é rápido”. Então, essa história de que garota de programa é garota de vida fácil é mentira?

Ela: Não é vida fácil. É um meio de vida que a gente procurou para ir se sustentando. Só que, apesar de não ser fácil, é difícil sair porque envolve muito dinheiro. Você chegar numa noite e fazer mil a 2 mil reais ou chegar numa semana e fazer 4 mil é uma coisa que, normalmente, é preciso trabalhar um mês ou mais de um mês pra tirar esse dinheiro. Então, é difícil sair por causa disso, pelo dinheiro, mas não porque gostamos de nos deitar com um e com outro que a gente nem conhece. Além do mais, 90% dos clientes são homens casados e isso é complicado.

Eu: Antes de ser garota de programa, você chegou a trabalhar em outros lugares?

Ela: Eu trabalhei, antigamente, como secretária de um advogado em uma cidade do interior durante 5 meses. Ganhava 250 reais por mês com uma filha morando na casa dos meus pais. Trabalhei, também, em um laboratório. Lá eu comecei liberando laudo de exame, depois já estava fazendo tudo: tirando sangue, coletando,  fazendo tudo. Eu falei: “Oxe como é isso mesmo? 300 reais pra fazer tudo?”. Lavava as lâminas e entregava prontinho. Foi bom pela experiência. Hoje, se eu for procurar um emprego, eu sei que vou me sair bem.

Eu: Dizem que garotas de programa não estudam, a sociedade enxerga elas como ignorantes. O que você pode nos falar sobre isso?

Ela: Fiz o ensino médio completo e sou técnica em enfermagem. O que dizem por aí é mentira, é um mito. Digamos que 50% das meninas não têm estudo, mas as outras 50% tem sim. Eu sou uma das 50% que estudei, só não quis aprofundar nos estudos. Como só tenho 20 anos, penso em fazer faculdade ainda.

Eu: Acredito que o mercado da prostituição seja bastante competitivo. Diante disso, é possível estabelecer amizades?

Ela:  É dona de boate querendo se aproveitar de você e comer metade do seu dinheiro. Quando arruma um programa pra você, tipo 300 reas, ela quer ficar com 150 reais e te deixar com os outros 150. É uma exploração, um absurdo! Não existe amizade dentro do mundo da prostituição. É uma querendo derrubar a outra. Eu completei um ano neste ramo e possa ser que alguém diga que já arrumou uma amizade, mas eu acho muito difícil. De 10, uma; metade de uma, você tira uma amizade. As mulheres faltam lhe matar dentro de um cabaré. “Que eu vou lhe matar”. Tudo é matar.

Eu: Como funcionam as casas de prostituição? Há diferença entre a mais top e a mais simples?

Ela: A diferença entre as casas são os clientes. Uma casa que a entrada custa 150 reais e o programa vai a 600 reais, os clientes são vereadores, prefeitos, gente da alta sociedade. Numa casa mais simples, a gente tem que receber qualquer um, da carroça ao carro. Já nas casas mais chiques, são apenas os clientes que realmente têm dinheiro para pagar 600 reais em uma ou duas horas com uma garota de programa.

Eu: Como é a relação com os donos dessas casas?

Ela: Eu acho que todo dono de casa é meio falso, é minha opinião. Às vezes mentem para irmos, dizendo que lá está lotado e, quando a gente chega, não tem nada disso. Todo dono de casa tem uma porcentagem de falsidade, mas já conheci alguns muito bons.

Eu: Qual a diferença entre uma garota de luxo e uma prostituta?

Ela: Eu frequento várias casas, inclusive as do topo, onde me apresento como modelo. Faço programa por meio do site ou em casa normal. O valor mínimo de um programa meu é 200 reais e não faço por 150 ou 100 reais. Acredito que todas são iguais: da modelo que se apresenta lá no topo às que fazem de 100 e 50 reais porque a vida é a mesma, não muda nada. Vai mudar o quê se você ganhar mais ou menos? Você continua sendo o quê? Garota de programa. Continua passando pelas mesmas coisas que todas passam. Tem homem que te oferece 600 reais e você não ficaria nem por mil, mas, pela necessidade, você vai ficar. Então, não tem diferença nenhuma, uma hora aperta para todos.

Eu: E esta casa em que você mora, mais alguma garota mora com você?

Ela: A gente fecha no boca a boca, sem contrato, para ficar aqui. Tem mais uma comigo, dizendo ele que vai trazer mais duas ou três meninas. Pela situação da casa, você vê que a gente não tem obrigação de limpar. Ele tem que colocar uma pessoa pra limpar e fazer almoço, mas não está cumprindo. Quando a gente chegou, estavam todas as camas sem forro. Ontem, eu tive que pedir um forro. A casa não é ruim, a limpeza que deixa a desejar. A gente já trabalha muito, dia e noite. Chegar e ainda limpar a casa, não existe isso em lugar nenhum.

Eu: No momento da relação com o cliente, vocês usam produtos eróticos?

Ela: Eu não sou muito fã. A única coisa que eu e acho que outras usam bastante é o lubrificante. E, mesmo assim, não é tão bom.

Eu: A prostituição é vista como algo sujo e, muitos, atribuem isso à mulher como uma pessoa que também é suja por ter relação sexual com muitos homens. Como funciona a higiene de vocês?

Ela: Eu quero quebrar esse tabu de garota de programa ser suja. Se a gente fizer 20 programas, são 20 banhos. Na hora de dormir, outro banho. É um sabonete pra região íntima, um pro corpo e outro pro rosto. A gente é chata e acredito que todas sejam assim. Não tem esse negócio de banho rápido, a gente se cuida bem.

Eu: Qual a situação mais difícil pela qual passou?

 De ir pra um motel pra ficar com um rapaz, chegar lá, ele estar cheirando e usando drogas e querer me pagar pra usar drogas. Eu falei que não e ele pôs uma arma na minha cabeça. E eu tive que ficar tranquila, né? Porque se eu falasse e me alterasse, ele poderia me matar. Isso aconteceu, aqui, em Vitória da Conquista. Eu fiquei meio desesperada, só que quieta e eu falei assim: “Ah, vou continuar tomando banho porque se ele for me matar, vai me matar quieta”. Foi uma das situações mais difíceis que já passei.

Eu: Pode nos contar outra situação tão difícil quanto?

Ela: Numa despedida de solteiro, fui fazer show para os rapazes. No final, acertamos o valor e fomos para o motel: eu, o noivo e o irmão dele. Quando chegou lá, eu pintei e bordei, mas não teve quem fizesse os meninos ficarem de pau duro. Acho que por causa da bebida e de muita droga. Então, o irmão do noivo começou a me agredir verbalmente; já o noivo estava tranquilo porque homem que é homem sabe quando não vai dar conta e que a culpa é dele. O irmão dele começou a dizer q não ia me pagar.

Eu sou uma pessoa muito esquentada, eu não sei como estou nessa vida ainda porque não é pra gente esquentado. Eu estava querendo ir embora com meu dinheiro. Eu disse “Olha, eu não tenho culpa se você não está funcionando seus negócios aí direito”. Conversa vai, conversa vem, ele já sabia que eu tinha filho e foi fazer uma sugesta pra mim – “Traga a sua filha e sua mãe pra ver se eu não como”. Aí me alterei e fui em cima dele dando tapas e murros. O irmão dele me pegou, pediu calma e disse que ele ia me pagar. Na volta, queria me deixar no meio da rua e em qualquer lugar, não aceitei, comecei a ser agredida verbalmente e comecei a chorar; mas, no final, acabaram me deixando lá na casa em que eu estava antes de ir pra despedida.

Eu: Qual a diferença do início para hoje, após 1 ano?

Ela: A experiencia que a gente adquiri. A gente passa por muita coisa difícil: a agressão verbal e física. Fisicamente nunca fui agredida, mas verbalmente foram várias e várias vezes. A experiência que a gente pega em trabalhar em casa, tanto em prive ou com cafetão ou outras pessoas do meio. A gente mais esperto.

Eu: O que você pensa em relação ao futuro?

Ela: Sair o mais rápido possível dessa vida porque essa vida não é pra ninguém. O pessoal fala: “Ah, que ganha dinheiro!”, mas pagamos por cada centavo que a gente ganha. Noites mal dormidas, saudades de casa, de mãe, de uma vida social que a gente não tem. Como somos bem taxadas, se a gente chegar num bar, dependendo da cidade, o pessoal já fala que ali é puta, é isso e aquilo, mas as coisas não são assim.

Minha filha está crescendo e eu vou morrer negando que eu já estive nessa vida um dia porque, se eu fiz por necessidade, no dia que ela tiver o primeiro aperto, ela também entra nesse mundo e eu não quero que ela passe por tudo isso que eu estou passando. Eu sei que, se um dia ela entrar, vai ser pior porque, cada dia que passa, as coisas vão só piorando. Quando minha mãe dizia “Não faça isso”, hoje eu entendo a importância.

Eu: O que você diria para as meninas que estão querendo começar a se prostituir?

Ela: Entre consciente, pensando em ganhar um dinheiro e sair porque essa não é uma vida de se levar pro resto da vida. Esse corpinho não vai durar pro resto da vida. Então, entre com um objetivo, um foco ou para abrir um negócio porque dá um bom dinheiro e porque não é legal chegar aos 40 anos fazendo programa.

 

Com essa mensagem, terminamos um papo que rendeu bastante.  Holly, muito obrigada pela entrevista. Sei que é difícil se expor. No Brasil e no mundo, a prostituição ainda é um tabu. Espero que permaneçamos em contato uma com a outra. Você é linda e merece sucesso. Agradeço por ter se aberto e ter nos desvendado um pouco deste mundo. Qualquer coisa, pode contar comigo!

Cláudia Santana Andrade, 36 anos, transexual, talentosa, inteligente, linda. Viajou pela Europa com a bola na mão. Se ela já sofreu algum preconceito fora do Brasil, foi por ser baixinha. Brasileira da cabeça aos pés. Coração litorâneo e leve, poesia em ser, sobretudo, mulher. Após 15 anos longe do dendê e de Iemanjá, eis que retorna para o Brasil.

Sim, o nosso bate papo será com ela. Vamos entender um pouco sobre como funciona o Brasil em detrimento de outros países quando o assunto é orientação sexual. Mais do que isso, a gente vai saber um pouco como esse tema está presente dentro do esporte e – particularmente – o vôlei.

 

Eu: Boa noite, Claudia. Para começar, eu gostaria de dizer que li tudo sobre você, aqui, pela internet. Li também que a sua estrada pelo vôlei é longa. Então, conte-nos um pouco o início da sua história neste esporte.

Ela: O meu interesse vem desde pequena. Sempre fui apaixonada por ballet clássico, ginástica artística e rítmica, mas, principalmente, por vôlei. Na adolescência, treinava muito vôlei, pois é um vicio ou uma droga no meu sangue desde pequena que não sei viver sem. Porém, em alguns campeonatos, ficava de fora por não aceitar jogar no masculino. Não é justo uma adolescente do sexo feminino jogando no masculino, então preferia ir pra casa chorar escondido e aceitar a decisão dos responsáveis pelo evento. Quando eles entendiam que eu, por ser mulher, tinha que jogar no feminino, aí sim eu estava encaixada e jogava feliz, sempre dando o melhor que podia.

Eu: Como surgiu esta oportunidade de sair do Brasil e como foi começar a jogar fora daqui e em times femininos?

Ela: Sai daqui, em 2001, e fui morar com uma tia na Itália. De lá, fui para a Alemanha em 2006, onde passei dois anos. Quando voltei pra Itália, no final de 2007, que comecei a jogar. Minha entrada, mesmo, no time feminino aconteceu neste ano após me mudar da Alemanha para Bologna, cidade da Itália. No período de férias, conheci umas jogadoras na praia e elas me perguntaram se eu queria jogar. Logicamente já estava toda me tremendo pra picar minha mão naquela bola, então aceitei. Logo, começaram a me chamar de “brasileira baixinha, porém ousada”, pois todas eram muito altas e jogavam bem. Passamos um mês jogando e, assim, saiu o convite de que o técnico queria me ver. Comecei a treinar, pediram meus documentos e jogamos por um bom tempo. Em 2010, comecei a jogar em um time pequeno na cidade de Roma. Inclusive, já estamos quase em 2017 e até hoje estou esperando alguém me perguntar sobre meu nascimento biológico no sexo masculino. A única coisa que sei é que eles alegam que o governo italiano  reconhece as transexuais como mulheres, então quem são eles para desrespeitarem as leis e não reconhecerem também.

Eu: Como sua família se colocou desde o princípio em relação à sua orientação sexual e ao esporte?

Ela: Minha família reagiu muito bem. Acostumaram-se muito cedo. Há muitos anos que, na minha casa, não falamos sobre este assunto, pois o passado morreu. Em relação ao vôlei, todos entendem esta minha doença, me aceitam assim – colocando sempre o vôlei em primeiro lugar – e torcem por mim!

Eu: Como você foi recepcionada fora do Brasil e qual a sua experiência em Roma ou em outros lugares na Europa por onde tenha passado?

Ela: Morei na Itália, Alemanha, França, Bélgica, Suiça, Espanha e todos países nos recepcionam de maneira excepcional – com segurança, educação, saúde e lazer. Mas amar mesmo, amo minha Roma, cidade em que passei maior tempo de minha vida enquanto estive no exterior. Eu poderia contar algo triste pra vocês de minha vida no exterior, mas não posso mentir: nunca sofri violência física,verbal, transfobia ou qualquer tipo de violência. É uma cidade perfeita? Não, pois existe inverno e eu odeio o inverno!!!

Eu: E sua volta às terras brasileiras?

Ela: Minha volta ao Brasil sempre foi de muita expectativa boa. Adoro o Brasil. Sonho em morar na Bahia e não  ter que sentir frio, mas aqui é um mundo totalmente diferente. Você não pode ficar doente se não tiver dinheiro para ir ao médico particular, poucas escolas têm educação correta e segurança. O que é segurança? Estou aqui há 1 ano e desconheço esta palavra. Todos os dias me pergunto: Ainda estou aqui? Como consigo estar aqui há tanto tempo? Talvez o calor da maravilhosa Ilhéus, os amigos e minha família que amo incondicionalmente!!!

Eu: como você imaginou que seria no Brasil e como realmente foi?

Ela: Assim que cheguei ao Brasil, procurei o time da minha cidade para jogar e tudo estava indo muito bem até receber um convite para jogar em outro time no Grand Prix. Aceitando este convite, minhas ex amigas de time não aceitaram minha saída. A partir daí, descobri que outras brasileiras reclamam, sofrem, vão embora do país e não voltam mais por causa do “racismo, a injúrias raciais e difamação”. Assistindo aos programas brasileiros, sempre vi estes acontecimentos tristes com pessoas negras, gays, trans etc, mas nunca pude imaginar que eu iria presenciar tais crimes e, o pior, ser a vítima. Fui difamada e humilhada publicamente em um ginásio de esportes. Consegui ser forte, manter a calma e a postura. Fui à delegacia e apresentei os documentos legais e exigidos pelo Comitê Olímpico Internacional, que são o exame de testosterona abaixo de 10mol/L e identidade de gênero declarada. Foi aberto um inquérito para que as leis sejam aplicadas e os culpados sejam responsabilizados por seus atos. A primeira coisa que pensei foi voltar pra casa em Roma. Chorando e muito abalada, decidi que aqui também é minha casa. Então resolvi fazer sessões de psicoterapia para tentar esquecer e curar o trauma sofrido. Outras pessoas não podem passar pelo que eu passei, não é justo com nenhum ser humano.

Eu: De acordo com o Comitê Olímpico Internacional (COI), atletas transexuais podem disputar as competições conforme o gênero que se identificam, mas os exames devem ser regulares. Não é isso? Com qual frequência você faz os exames e como ele é feito?

Ela: Os exames de testosterona e hormônio masculino são feitos em um laboratório em Belo Horizonte (MG) uma vez ao mês e em jejum. O sangue é colhido e enviado ao laboratório. Meu exame é sempre muito mais baixo do que o exigido, pois tomo medicação desde os 13 anos de idade continuamente até os dias de hoje.

Eu: Atualmente, você está jogando em um time aqui no Brasil, não é? Fale mais sobre isso.

Ela: Enquanto estou passando uma temporada no Brasil, jogo em um time de Itabuna, na Bahia, mas sem vínculo e contrato porque times de outras cidades sempre me convidam pra jogar e não sei recusar. Quanto mais vôlei pra mim, melhor.

Eu: Ao comparar o Brasil com as regiões da Europa por onde passou, como o faria?

Ela: O Brasil precisa começar, desde muito cedo, nas escolas, a ensinar o respeito às diferenças e orientações sexuais. Assim, essas próprias crianças levarão para dentro de casa este aprendizado e começarão também a conscientizar a família.

Eu: Qual a sua mensagem para todos aqueles que passam por dificuldades parecidas contigo devido ao fato de também serem trans?

Ela: Ser trans não é uma escolha, mas uma luta contínua que você nunca vai parar e dizer: eu venci. Tudo é proibido, tudo é errado. Mas se continuarmos juntos nesta luta, conseguiremos diminuir o sofrimento de outras vidas aqui no Brasil. Perseverança sempre, nunca desistir de seus sonhos sejam ele quais forem. Sofreu qualquer tipo de violência física ou verbal? Trans, negro, religioso ou gay? Abra sua boca, procure uma delegacia e lute por justiça. Sempre terá pessoas para te apoiar. Você não está sozinho, então lute por seus sonhos e não deixe que seres desprezíveis o destrua!

Eu: E qual a sua mensagem para todos nós?

Ela: Você não precisa ser LGBT para apoiar esta causa. Imagina você ver um filho seu sendo agredido injustamente. Imagina você ver sua Irmã menor não podendo participar de determinados jogos na escola porque o seu sexo biológico é masculino. Imagina você beijar outro do mesmo sexo na rua e ser agredido injustamente. Pensem, reflitam, lutem e, assim, teremos um mundo melhor para todos!

 

Com essas últimas palavras, paparicamos mais e terminamos um papo delicioso. Claúdia prometeu voltar qualquer dia com novidades e me permitir escrever um novo texto sobre suas aventuras pelo Brasil. Eu agradeço muito por ter cedido seu tempo, pelo carinho e pela garra. Precisamos sempre de exemplos como você!

Hoje vai rolar um bate papo e, dessa vez, vai ser com uma ex-dançaria de funk. Isso mesmo. Ela pediu que sua identidade fosse preservada por meio do anonimato e é claro que pedido de entrevistada é uma ordem, além do mais ela também não quis ceder imagem alguma, portanto, a que ilustra esta publicação é de um baile desconhecido. Paulista, nossa despudorada fez parte do mundo do funk durante sete anos. Este foi tempo o suficiente pra que ela traçasse uma história longa e maravilhosa, assim como ela mesma assinalou.

Primeiramente, Adriana Soares (nome fictício) começou dançando axé e, a partir de um convite, ela fez um teste para dançar funk e foi selecionada. Seu primeiro show foi num domingo à tarde numa casa antiga no Embu das Artes, em São Paulo. O sucesso na época era Bonde do Tigrão e, nessa de desvendar esse novo mundo, ela não se fixou em Mc nenhum, mas dançou aqui e ali chamando atenção por onde passava. Então, já que estamos mais inteirados sobre ela, comecemos a nossa sessão de perguntas!

Eu: Minha linda, como foi seu primeiro show?
Ela: Super tenso. O funk é muito sensual e sexy. O primeiro show foi uma música da minha época estourada, foi bonde do tigrão e foi bem diferente, Lu, eu estava com tanto medo de cair, sei lá, que nem a cabeça levantava, mas deu certo.

Eu: Vejo o funk de uma forma bem sexual mesmo. Não só por causa da dança, mas também pelas letras das músicas. Nessa época que o Bonde do Tigrão estourou foi que eu conheci esse gênero musical. Acho que aconteceu assim com muita gente. Sem essa conotação sexual, a criançada toda dançava aqui na Bahia.
Ela: Antigamente funk era uma batida, sabe? Bem pouca putaria ou palavrões. Bonde do Tigrão, Tati Quebra Barraco, Naldo e Lula, até mesmo Claudinho e Bochecha tinham essa pegada mais leve. Hoje, claro, o funk como qualquer outro ritmo, tem aquela batida, porém muita apelação sexual e exige cada vez mais que o homem ostente, obtenha poder. Não julgo porque, na verdade, está simplesmente acompanhando a realidade. Quem não via por aí meninas com 12 anos grávidas (a chamada novinha)? Hoje, infelizmente, é o que mais tem. Quem não via o menino de 14 usando maconha, hoje se vê lança perfume, cocaína, lsd e tantos mais? É tanto que muitos dizem “o bagulho agora é tóxico”. A música retrata o que há. Aí vem muitos e dizem que tem apelação sexual. Claro que tem! Tem sim porque se não tivesse, ninguém iria dizer “Essa música lembra você (tava no fluxo avistei a novinha no grau, sabe o que ela quer?)”. Na minha época, não existia esse fluxo, era quermesse, coisas de pai e mãe saírem de suas casas e levarem seus filhos de até 16 anos.

Eu: É isso mesmo, a música e o estilo acompanha o ritmo precoce. Mas sim, e você acha que se emancipou por causa da entrada no funk? Você acha que você se tornou mais mulher depois do funk?
Ela: Sim e não… rsrsrs. Sabe que antes de dançar funk, Lu, já era vaidosa. Fiz dança do ventre, fiz pole dance, enfim, sempre fui de ser mais na minha; mas, após o funk, todos os homens me desejando, me cobiçando, me querendo, me dizendo elogios mexeu comigo, mas esse lado sensual e vulgar sempre tive (com quem me relacionava). Acho que toda mulher gosta de ouvir “Nossa, que linda ou que loira/morena/ruiva/mulata!”. Só acho que o típico GOSTOSA me incomoda.

Eu:  É verdade. Sou sua fã! Deve ser lindo você dançando. Ainda mais por já ter passado por tantos estilos.
Ela: Ah, que nada, Lu! Eu sou sua fã. Te admiro porque você foi lá e fez a #pohaficaseria (by Insta @pudornenhum).

Eu: Então me diz quais as situações mais inusitadas pelas quais passou neste período em que dançava.
Ela: Uma vez um cara entrou em contato e me contratou para um show normal como os outros. Foi tudo pago certinho e quando chego no evento só tinha um senhor com aparência de bem sucedido. Era um show particular.

Eu: Eitaaaa! Genteee, e você fez, né?
Ela: Sim, normal. Ele ficou na plateia e eu no palco… rsrs.

Eu: E de inusitado com as pessoas da plateia e também com os próprios colegas de profissão?
Ela: Na plateia, um rapaz muito bonito e charmoso jogou a cueca melada para mim no palco. Aquilo me deu um tesão tão grande que deixei ele entrar no camarim após o show, tiramos muitas fotos e ficamos (apenas beijos). Outra vez foi um body shot (um jeitinho de tomar tequila no umbigo) que fiz em uma menina e o noivo dela estava na plateia. Nossa, ele amou e ficou louco. Como era casa de swing, eles transaram intensamente para todos verem. Com um novato, já rolou algo mais sério. Ele era Dj novinho de 18 anos e era o primeiro show dele com a nossa cia. Todo calouro paga mico e o dele foi achar que todas nós, umas 20 garotas, éramos todas lésbicas… rsrs. Ele pirou quando íamos nos trocar e fingíamos gemer…rsrsrs. Daí um dia, eu estava tomando banho com o som dentro do banheiro e não ouvi ele chegar, só vi quando ele entrou. Nossa, pirei com aquele novinho de pau para fora.

Eu: Muitas historias! Hahahaha Normalmente são quantos nos grupos de funk?
Ela: Depende. Tem aqueles de um cantor apenas; tem um cantor e Dj; um cantor, Dj e duas dançarinas.  Vixi, infinitas combinações!

Eu:  hahahaha … e no seu caso era como?
Ela: Eu trabalhava assim: precisava de dançarina, eu ia. Tinha feira, fazia. Ficar em camarote, ia. Fazer eventos, ia. Sempre seguindo meus princípios.

Eu:  Entendi. Era um sucesso! hahaha E por que acabou saindo? Largando esta profissão?
Ela: Fase. Ok, menti… rsrs. Cheguei a fazer um sucesso tremendo. Ensaios, revistas e, quando ia para o Uruguai, um mês antes perdi meu pai.

Eu: Ooooooh…Sinto muito.
Ela: Obrigada, mas continua aiiiiiiii….Bola para frente!

Eu: Com certeza. Depois disso, então, você então acabou deixando de dançar..
Ela: Sim. Família, né? Sou eu, minha mamis e minha irmã mais nova (também tenho um irmão por parte de mãe que nunca morou com a gente). Então, eu seria o ombro para ajudar minha mãe. Bom, hoje faço eventos. Trabalho em recepcionar, divulgar produtos, festas de decoração.

Eu: Hummm. E você sente falta?
Ela: Sim . Principalmente de ser desejada por pessoas que nunca viram meu rosto.

Eu: E esta viagem pro Uruguai era algum evento especifico pra dançar ou algum outro trabalho?
Ela: Sim, era para dançar. Uma temporada de 23 dias. Era um empresário que veio, conheceu o funk carioca e veio a São Paulo para conhecer a noite. Estávamos em um festa a lazer, ele se encantou com uma modelo conhecida nossa e ela nos apresentou. Fechei o contrato e tudo, porém eles foram muito carinhosos comigo, entenderam e ainda me pagaram uma quantia para despesas em relação ao acontecido. Eu apenas devolvi, pois não iria mais continuar dançando. Eram ótimos profissionais, tanto que há um mês recebi outra proposta para voltar. Estou pensando …!

Eu: Tentador, ne?
Ela: Demais. Só que eu já estou velha para essas coisas. O corpo não é mais o mesmo.

Eu: Se fosse assim, não receberia convites. Mazoia! Rsrs
Ela: Bora malhar e mesa de cirurgia porque a gravidade não é minha amiga… Rsrsrs.

Depois disso, rimos e continuamos a papear sobre coisas nossas e sobre nossa vida – nada que valha a pena compartilhar com vocês. Adorei esse papo com nossa despudorada que, atualmente, encontra-se casada e muito bem na vida. Espero que tenham gostado. Agora vou colocar um funk porque, para ser sincera, eu adooooro!

Eu vou passar cerol na mão, assim, assim
Vou cortar você na mão, vou sim, vou sim
Vou aparar pela rabiola, assim, assim
E vou trazer você pra mim, vou sim, vou sim
(Bonde do Tigrão)

Quase 2 anos e 5 meses juntos. Ele com 27 e ela com 28 anos; ele baiano (mas viveu a vida toda em Natal, então convenhamos que já é um natalense), ela natalense nata; ele filósofo e ela professora de língua portuguesa – juntos fazem o encaixe perfeito das palavras em sintonia com o pensamento. Antônio Lázaro Vieira Barbosa Junior (impossível não lembrar o nome dele todo, ele faz questão de expor o sobrenome por aí!) e Laryssa Oliveira são dois jovens cheios de energia e que compartilham muito amor em um relacionamento considerado não convencional e que, por isso, ainda atrai alguns preconceitos. Você pode, inclusive, chamar de R.A. se preferir. O relacionamento aberto é uma forma de viver a dois que exige, mais do que tudo, confiança e segurança no outro. Sabendo disso e querendo entender como deslanchou essa relação, batemos um papo delícia pelo Facebook e veja aí o que rolou!

Depois de toda a introdução bestagística, chego ao ponto.

Eu: Mas sim, eu queria que falassem como vocês chegaram a conclusão de se relacionar dessa forma. Quem sugeriu e qual foi a reação do outro.

Ele: Na verdade, não foi sugestão. As coisas já começaram abertas.

Ela: Então, eu nunca tinha realmente pensado em R.A. até eu terminar o meu relacionamento anterior. Eu namorei quase 10 anos, monogâmica. Só que o relacionamento teve seus altos e baixos… eu trai, fui traída… enfim.

Ele: Mas, de certa forma, quem deu o empurrãozinho fui eu.

Ela: Daí eu queria tentar algo diferente e acabou que Lázaro e eu começamos a conversar sobre isso, né amor? Isso antes de ficarmos. E já começou aberto.

Ele: Num dia (domingo) a gente conversou a respeito; no outro dia, ficamos. Laryssa diz que quando a gente se encontrou, ela não tava pensando em ficar comigo e que as coisas apenas aconteceram lá. Já minha versão é que ela tinha algum interesse, manifesto no dia anterior.

Ela: Mimimi.

Ele: Mas só tive certeza quando rolou o beijo.

Ela: Já eu só tive certeza um tempo depois.

Eu: Kkkkkkkkkkk

Eu: E mais uma pergunta: não é porque é R.A. que é de qualquer jeito, ao léu, né? Vocês possuem regras, quais sao? são duas perguntinhas aí..haha.

Ele: Bom, regra regra a gente tem duas bem básicas: uma é ter disposição pra discutir a relação sobre tudo. No início, era sobre os sentimentos um do outro. Com o tempo, falamos sobre filhos (Laryssa que tocou nesse tópico), planos futuros (meu doutorado, o mestrado dela)…

Ela: Lázaro era meio fechado… ele não conversava sobre seus próprios sentimentos, a gente teve um quase problema por causa disso. Poxa, eu era novara nessa história de R.A.

Ele: Isso quase nos custou o relacionamento, pura frescuragem da minha parte.

Ela: E eu comecei a ficar insegura porque eu achava que tava sentindo algo mais forte, mas ele não parecia ter isso. Pelo contrário, ele fortalecia a minha insegurança falando sobre outras meninas (eu não lembro se foi bem isso… minha memória é horrível).

Eu: E resolveram isso a partir do momento que ele começou a se abrir?

Ela: Com certeza. Eu coloquei ele na parede… kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Ele: Comecei a me abrir? Laryssa me botou no fio da navalha.

Ela: Falei que o amava. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. mas deu certo.

Ele: Eu me abri de uma vez.

Eu: Pronto, deixou a frescura de lado!

Ele: Claro que ainda levei tempo a trocar chamego (em forma de palavras), mas no dia seguinte já soltei um “te amo” pra ela.

Ela: Aí deu certo \o/

Ele: Aí deu MUITO certo. Lembro que a primeira vez que chamei ela de “meu amor”, ela ficou toda saltitante.

Eu: E qual o maior desafio nesse tempo todo?

Ela: O maior desafio…? Pergunta difícil porque tem sido muito gostoso esse tempo. Passo pra lázaro essa!

Ele: Eu cheguei numa vibe meio Terezinha (Maria Bethânia)

O terceiro me chegou como quem chega do nada

Ele não me trouxe nada também nada perguntou

Mal sei como ele se chama mas entendo o que ele quer

Se deitou na minha cama e me chama de mulher

Foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não

Se instalou feito um posseiro dentro do meu coração

Eu: Vocês tiveram problemas ou algum questionamento (por algo) que em algum momento fizeram vocês quererem voltar atras pelo fato de terem levado a relação assim?

Ela: Não, nunca. Pelo menos, eu não.

Ele: Nunca. Pelo contrario, quanto mais o tempo passava, mais tínhamos certeza de que seria inviável uma recaída na monogamia e, quanto ao desafio do relacionamento, na verdade, o desafio tá mais na relação da gente com a sociedade.

Eu: Humm..fale mais sobre isso, Lázaro. Sobre como a familia vê isso.

Ele: Sobretudo da parte de Laryssa. Minha mãe é de buenas, minha irmã também.

Ela: Hum… a coisa é que a não-mono tem a ver com posicionamento político e não somente o nosso relacionamento. A gente questiona a monogamia e isso é o que gera a reflexão que não conseguiríamos ser mono.

Ele: Meu pai e meu irmão nunca questionaram nada, mas aceitaram nosso relacionamento de cara.

Ela: Minha família é bem ranzinza com isso. Eles sequer legitimam como não-monogamia o que nós temos, é como se fossemos um casal mono “comum”.

Eu: É um pensamento conservador, típico da nossa sociedade – infelizmente.

Ela: Pois é.

Ele: Um dos problemas que pensamos, nesse sentido, é com relação a filhos.

Ela: E no trabalho? Foi bem estranho também. A galera simplesmente não aceita.

 

Ele: Vi isso num grupo aqui do Face – uma mulher perdeu a guarda do filho por se relacionar com dois homens ao mesmo tempo.

Ela: Eu vi também.

Eu: Eu imagino, por isso toquei nas regras….porque as pessoas imaginam isso mesmo: que é algo de qualquer jeito, sem respeito algum ao outro.

Ele: Aí entra a segunda regra: a gente não comenta as escapulidas um com o outro. Até chegamos a conversar a respeito no início do ano.

Ela: Escapulida parece que o que a gente faz é errado…

Ele: Mas, em princípio, o acordo é esse, bocó.

Ela: Nossos relacionamentos paralelos é mais bonito u.u

Ele: Tem nada de errado, eu tava pensando nessa expressão também.

Ela: Faltou aspas, mas ta de boa… kkkkkkkkkkkkkkkk

Ele: haiouehaioehuauiehoaiheuaheouiahe

Ela: É, não comentamos! E pelas experiencias em que vazou a informação, a coisa não foi legal. Não desestabilizou o relacionamento, mas também não ajudou. Ajuda o fato de que nenhum dos dois nutre o ciúme que possa vir a sentir.

Eu: Eu acho isso muito legal..o sentimento de posse do outro não é bacana.

Ele: Nem um pouco. Nós ficamos suuuuuuuuuuuuper desconfortáveis quando acontece qualquer aperreio.

Ela: Mas a gente se ouve e isso é mais importante. Por mais que se sinta algum resquício de posse – somos vulneráveis, a sociedade imbrica isso na gente, a gente nunca deixa a coisa sem ser desconstruída.

Eu: Isso é ótimo, Lary. Desse jeito, o relacionamento é mais saudável.

Ela: Tem dado certo.

Ele: Tem dado MUITO certo.

Eu: Muito bom falar com vocês, espero que um dia eu encontre alguém assim também…pra levar a vida com a liberdade que nos é inerente.

 

Depois do bate papo, ainda houve muitas risadas. E aí, o que vocês acharam, de boa ou chato? Achei interessante vocês perceberam por meio da fala deles o quanto nossa sociedade é cheia de preconceitos e sustenta um moralismo cujas raízes deveriam ser arrancadas. Este casal lindo é a prova viva de que a liberdade entre duas pessoas é a desconstrução mais linda que pode haver. Depois dessa, aceito um brinde e duas cachacinhas no ponto. Ah, aceito uma investida também, viu? Oh, daquelas!

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Casal de liberdades e afeto