Depois das 22:00 deixa de ser cedo, é quando duas horas depois entra a madrugada e, ainda assim, as redes sociais estão em alta. A madrugada é quando a cidade e as bocas silenciam, mas os dedos e as vontades não. Neste momento, o sexo parece aflorar com mais vontade. A liberdade parece ser maior, o silêncio externo parece contrastar com a turbulência que irrompe por dentro.

Há quem não sinta sono e tenha os olhos bem abertos perante o despertar da sexualidade. É nesta hora que você pode se tocar e tocar o outro sem ser incomodado ou sem necessitar dar satisfações. Diria que este momento seria o dos orgasmos, da multiplicidade deles sobre pele ou sobre papéis. Sim, há quem tenha orgasmos com boas leituras de livros. Esclareço isso porque ler não é um ato que encontra-se somente no papel, está, inclusive, na ponta dos dedos, da língua e sob nossos ouvidos.

A madrugada é o êxtase, assim a sintetizaria. Há, também, aqueles que maravilhados com a lua e a escuridão do céu com suas estrelas, fotografa e divulga a sua belíssima captura – mero retrato de um poema visual. Há intensidade neste ato? Creio que sim! A noite e o madrugar favorecem isso.

Para os que se entregam aos sonhos, sono, cobertor e desejos, a noite também pode ser reveladora e a madrugada pode parecer eterna até um acordar insuspeito e a percepção de que o dia está recomeçando cheio de manias, planos e rotina.

Sexo e Sexualidade são duas palavras chaves, aqui, no Pudor Nenhum. A gente sabe que não há uma relação de sinonímia com eles, ainda assim, não sabemos explicar o que significam e, desse modo, ficamos povoados de dúvidas que mal conseguem ser elaboradas. Antes de qualquer discurso, o melhor lugar para destrinchar significados é o Aurélio, nele consta que sexo é

 

Desconsideremos essa definição apontada nos itens 5 e 6 porque essa ideia de sexo forte e fraco foi uma construção cultural ao longo de nossa história que não condiz com a realidade. Ainda, conforme o Aurélio, vamos verificar o que significa sexualidade.

 

Não sei se essa definição a respeito de sexualidade lhes ficou clara, então resolvi explicá-la com minhas próprias palavras e por meio de uma metáfora. Pensemos na relação entre língua e fala. A língua é um conjunto de códigos específicos que representam a coletividade, tais como as diversas línguas ao redor do mundo, enquanto a fala é algo individual e refere-se ao modo como alguém se comunica através da linguagem verbal. Nesse sentido, a fala está inserida na língua porque é a partir dela que esta se manifesta. Do mesmo modo, temos a inserção do sexo no todo que abrange a sexualidade.

Sexo é algo individual ou uma palavra que representa o ato sexual em si. Em outras palavras, diria que meu sexo é feminino, que eu tenho vulva e que adoro fazer sexo com homens e em diferentes posições. Além disso, eu posso dizer que, em meus cursos universitários, eu sempre estudei com uma quantidade maior de pessoas do sexo feminino. Já a sexualidade, a gente aponta-na de forma diferente.

A minha sexualidade consiste no aflorar dos meus apetites sexuais. De acordo com a Psicanálise, a sexualidade está diretamente relacionada à libido, pois temos um corpo erótico que reage perante todos os sentidos. Esta funda-se em Freud que compreende o nosso corpo como uma fonte de prazeres e, consequentemente, o sexo como base de tudo.

É possível também, para ficar ainda mais fácil, entender o Sexo como biológico e a Sexualidade como psicológica. Esta última pode ser caracterizada pela orientação e opção sexual, portanto, falar de sexualidade é realmente abordar um mundo onde nossas aptidões sexuais são colocadas em pauta e vão além da abordagem sobre homens e mulheres, ficar de quatro, mulher por cima ou por baixo.

 

Continuação da imagem que ilustra esta publicação.

Continuação da imagem que ilustra esta publicação. Fonte: http://biancabeltramello.tumblr.com/

 

Para a jornalista Thaís Gurgel, na Revista Nova Escola, “Apreciar a textura de um sorvete, relaxar numa massagem, desfrutar o beijo da pessoa amada: tudo o que se relaciona ao prazer com o corpo está ligado à sexualidade”, ou seja, a sexualidade é uma amplidão que nos perpassa desde o nosso nascimento e, sendo assim, é um tema que não se esgota. Percebe-se que suas palavras estão imbuídas do que Freud, no início do século XX, concluiu.

Para Sigmund Freud, em Um caso de histeria, Três ensaios sobre sexualidade e outros Trabalhos,”não é fácil delimitar aquilo que abrange o conceito de ‘sexual’. Talvez a única definição acertada fosse ‘tudo o que se relaciona com a distinção entre os dois sexos’. (…) Se tomarem o fato do ato sexual como ponto central, talvez definissem como sexual tudo aquilo que, com vistas a obter prazer, diz respeito ao corpo e, em especial, aos órgãos sexuais de uma pessoa do sexo oposto, e que, em última instância, visa à união dos genitais e à realização do ato sexual. (…) Se, por outro lado, tomarem a função de reprodução como núcleo da sexualidade, correm o risco de excluir toda uma série de coisas que não visam à reprodução, mas certamente são sexuais, como a masturbação, e até mesmo o beijo”.

Diante de toda a  explanação realizado, espero que não tenhamos mais dúvidas diante do slogan que cerca o Pudor Nenhum: Sexo e Sexualidade na ponta da língua. Quando me dizem que é difícil ter assunto para escrever todo dia, eu rebato com o argumento de que sexualidade é um universo no qual as pautas não se esgotam nunca.

Caso ainda tenha dúvidas e queira conversar, pode me convidar para uma xícara de café ou uma taça de vinho. No Pudor Nenhum, eu gosto de deixar tudo às claras, afinal, quem fica no escuro, não enxerga o buraco da fechadura e a gente adora olhar o que tem do outro lado.

Para finalizar, quero que olhem novamente para a imagem que ilustra esta publicação. Da ilustradora Bianca Beltra Mello, ela e outras foram achados que me deixaram morta de amores e que representam bastante todo o universo de prazeres que trazemos aqui. Estou encantada! Quando quiser sugerir artistas, temas e vontades, fique à vontade e despudorize-se junto comigo. Confesso que é uma delícia!

Nada melhor do que ejacular no momento mais intenso do prazer sexual, diz aquela que enxarca os lençóis. Entretanto, este ato não é tudo na vida sexual de nós, mulheres, e – inclusive – ele levanta uma série de questões sobre a sua veracidade. Para algumas mulheres, pode soar estranho o termo ejacular, quando, na verdade, ele só é usado para se referir ao orgasmo masculino.

Muito já tem sido feito (a indústria pornográfica é um bom exemplo) para desmitificar essa história de que somente o homem expele um certo líquido durante o orgasmo, mas – ainda assim – o preconceito e, principalmente, o desconhecimento em relação à ejaculação feminina permanecem. Como uma boa menina que sou, resolvi escrever um pouco sobre o que encontrei a respeito do assunto para esclarecê-los sobre esta temática tão pouco abordada.

Amigas, sabe quando você sente vontades de fazer xixi bem no instante da penetração? Não importa que seja penetração de pênis ou dedos, mas dá aquela vontade de fazer xixi e você pede para ele parar, respira fundo e continua ou corre ao banheiro e urina. Vocês sabem, né? E se não sabem o que é isso, sinto muito. Por que? E o que isso tem a ver com ejaculação? Simples! Essa vontadezinha (muitas vezes vontadezona) de ir ao banheiro é sinal de que se estimular só mais um  pouco, você estará no ponto para ejacular. Como assim? Então serei mais precisa.

 

 

A ejaculação feminina caracteriza-se pela excreção de líquidos pelas glândulas de Skene e expulsão durante o orgasmo. O líquido da ejaculação feminina não deve ser confundido com o líquido da lubrificação, que permite uma penetração mais fácil, nem com a urina, pois sua constituição é diferente desta e se assemelha mais ao líquido expelido pela próstata masculina (só que sem conter espermatozoides).

A anatomia comprova que é impossível à mulher urinar durante o ato sexual, uma vez que o músculo, que se contrai na hora do orgasmo, é responsável pela contenção urinária. E como se dá o processo que torna a ejaculação possível? Hum… esta resposta é fácil, fácil. Basta uma boa estimulação no ponto G. Ao ser estimulado, ele aciona as glândulas de Skene e elas podem expelir, pela uretra, um líquido viscoso e transparente, capaz de molhar a si completamente e deixar os lençóis alagados. Ah ta! O ponto G? Este não pode escapar do que me propus a escrever.

 

O ponto G é uma pequena área atrás do osso púbico, perto da canal da uretra e acessível através da parede anterior da vagina. A sua textura apresenta-se um pouco mais grosseira, como a de uma amêndoa. Tudo bem agora? Mas sim, voltando à ejaculação, quando essa área é estimulada e dá aquela vontade de urinar, então se permita e deixe a vontade chegar às últimas consequências, que você acabará ejaculando perfeitamente.

Uma coisa é importante: Não pense que você está urinando ou que o seu parceiro pensará isso, senão você bloqueia o processo. Simplesmente abra as pernas e deixe-se levar, encharque-se mesmo e depois só suspire. Para que tudo ocorra de forma ainda melhor, bebam muita água antes do ato. Assim, o seu corpo fica hidratado o suficiente para o momento do êxtase. Agora, mon amour, bons orgasmos!

Algumas coisas nos marcam, como, por exemplo, a primeira cantada. Nós, mulheres, somos sempre quem primeiro ouvimos elogios, provocações e indiscrições em vez de proporcionarmos isso. A primeira delas, que pode também soar como ofensa, acaba ficando em nós. Os homens, diferentes da gente, costumam ser mais abertos quando o assunto é a famosa cantada. Qualquer corpo feminino que lhes chame a atenção é motivo para que externalizem seus sentidos. Os homens são mais ágeis, mais descomprometidos (ou inconsequentes) quando a tentativa é essa. Já as mulheres costumam ser mais preocupadas e calculistas porque não gostam de errar nem de prejulgamentos.

Algumas mulheres são observadoras, gostam de se mostrar interessantes e de alcançar os seus objetivos aos poucos e na manha. Entretanto, há que se ter, em algum momento, uma cantada. Vejamos: Sentir atração, bater aquela dúvida, abortar a ideia de tentar. Sentir vontade, embriagada, tentar e cair de leve. Neste último caso, há um fator preponderante: a bebida. Quem bebe, fica destemida, larga-se, permite-se e age por impulso. Agir por impulso nem sempre é tão bom, além das atitudes que não competem com o que se é.

A bebida, normalmente, relaxa e permite ao consumidor socializar. Quando em excesso, ela atua de forma mais inesperada, aceitando que se fale e aja de formas diferentes do comum porque a consciência perde certas barreiras e algumas coisas acontecem sem que se pense e julgue com antecedência. Nesse contexto, surgem as tais cantadas femininas. As mulheres, quando bebem, partem para o ataque, pois usam sua lábia (adooooro!). Entretanto, cantadas e ficadas após embebedar-se nem sempre são as melhores ideias. É preciso, às vezes, controlar-se.

Então, delícias, sossegar o facho não significa virar santa. Curtir a bebedeira não é sair atirando e depois se arrependendo por aí, apesar de dizerem que a bebida nos permite fazer o que tínhamos vontade e, por pensarmos demais, evitamos. Curtir a bebedeira é se sentir mais livre, mas nem toda liberdade precisa ser confundida com saturação sexual. Embriagar-se não é perder-se em si, pelo contrário, pode ser um ato de se encontrar.

Ela tem 20 anos e uma filha de 5 aninhos. Começou a trabalhar profissionalmente com sexo aos 19 anos. Linda, alta e inteligente, encontrou no corpo uma forma de ganhar dinheiro e cuidar da pequena. Foi casada, o ex-marido não arcou com as suas responsabilidades e, assim, preferiu deixá-lo de lado e seguir este caminho: o do sexo.

Preferiu não revelar o nome, afinal, o preconceito está em todos lados e ser prostituta não faz com que ela perca seus valores e dignidade. A entrevista, hoje, é com Holly Golightly – uma garota de programa que está mais para uma bonequinha de luxo, apesar de viver vários meandros da profissão. Diferente da personagem do filme, ela não está decidida a se casar com um milionário. Entretanto, é tao bonita quanto e já teve seus envolvimentos inesperados.

O bate papo de hoje é com esta moça de nome fictício e que causa burburinhos por onde passa, inclusive em Vitória da Conquista – na Bahia. Então, vamos começar?

Eu: Boa tarde, Holly. Primeiramente, por que você começou a trabalhar com prostituição?

Ela: Eu entrei nessa vida pelo dinheiro, este foi o principal motivo. Por eu ter uma filha e o pai dela não ter dado assistência, o pessoal fala: Ah, por que não coloca na justiça? Mas o pai tem que dar as coisas sem negócio de justiça, pois é o sangue dele, é filha, entendeu? E eu não sou muito orgulhosa para isso, então, eu não fiz questão de por ele na justiça. Eu comecei a fazer programa através de uma amiga. Eu andava muito com pessoas que faziam e, por isso, já era taxada desde cedo. Comecei com 19 anos e completou um ano hoje, então eu fui gostando do dinheiro que não é fácil, mas é rápido.

Eu: Sua família sabe sobre o assunto?

Ela: Minha mãe sabe, meu pai não. Minha mãe sabe porque achei melhor ela saber da minha boca. Ela não aceita, mas também não vai me crucificar porque é mãe.

Eu: E quanto a sua família?

Ela: Fico, no máximo, um mês quando quero juntar dinheiro. Ela me cobra dizendo “Mamãe, to com saudade”, “Vem me ver”, “Quero te ver”. Então, quando quero passar um tempo em casa, trabalho 2 meses para juntar uma grana boa e vou pra casa. Mas quando estou em casa,  passam 15 dias e já é automático, fico agoniada pensando que tenho que voltar a trabalhar porque o dinheiro está acabando. Para ter um dinheiro a mais, eu vendo Mary Kay, faço makes, inclusive fiz 2 cursos em São Paulo. Quando vou trabalhar em uma boate, já ganho vendendo produtos e produzindo as meninas. É bom porque eu tiro um dinheiro a mais, não faço só programa.

Eu: Após começar a ser garota de programa, como ficaram as suas amizades?

Ela: Meus amigos fingem que não sabem e eu acho até melhor porque mantém o respeito. “Ah, ela trabalha e tudo mais, só que a gente não tem nada a ver com a vida dela já que ela continua a mesma pessoa”. Eu acho que amizade não é o que a gente tem, mas o que podemos oferecer nas horas difíceis para um amigo. Sou bem liberal com eles e, às vezes, digo as coisas. Não chego a citar que sou garota de programa, mas deixo bem aberto q não sou besta e que acho melhor “vender” meu corpo do que estar com um e com outro todo dia. Tem mulher que todo dia está com um ou com outro e a fama está linda. É melhor ser mal falada com o dinheiro no bolso.

Eu: Para ter um relacionamento sério com alguém, é possível?

Ela: Ai, meu deus! Não tem. É difícil, sabe? Eu mesma não namoro hoje porque sou bem sincera. Se eu for me envolver com alguém, vou dizer o que faço e a pessoa não sei se vai aceitar porque 99,9% não aceitam e não querem tirar ela dessa vida pra sustentar e dar uma vida melhor.

Eu: Mas você nunca chegou a se envolver com um cliente?

Ela: Desde Abril, eu tenho um romance com um cliente que está se desmanchando hoje. Atualmente, a gente não tem muito contato. Foi uma coisa muito boa, mas eu não quero mais. Ter romance com cliente é a pior coisa que tem porque eu acho que se um cliente gostar de você, ele realmente vai querer te tirar daquela vida em vez de ficar esperando uma atitude sua. Só que ele sempre esperava, teve uma hora que cansei e chutei o balde. Quis trabalhar porque, na idade que estou, é melhor conquistar algo pra mim do que buscar um relacionamento. Digo isso não só pra mim, mas pra todas as meninas novas. Nada de relacionamento, vai procurar estudar, abrir um negocio,  alguma coisa pra bater no peito e dizer “É meu, ninguém me deu”.

Eu: Há um ano, quando você começou, como foi?

Ela: No início, flores, como toda relação. Eu encaro isso como uma relação. Foi flores, pois ganhei muito dinheiro. Eu fechava o mês em 16 a 20 mil. Hoje, como essa crise, a gente trabalha de 1 mês a 45 dias pra tirar 8 a 7 mil reais, mas no início é flores.

Eu: Com todo este dinheiro no início desta sua atual carreira, houve algum deslumbramento?

Ela: Logo quando entrei nessa vida, gastava muito dinheiro com marca, com grife. Todas fazem isso. Entrar numa loja e comprar um vestido de mil, para mim, era normal. Hoje, quando entro em uma loja e vejo um vestido de 200 reais, pulo bem longe. “Ai, meu Deus, eu tenho um compromisso, eu não posso comprar desse jeito”. Este ano, coloquei silicone nos seios e paguei a cirurgia toda à vista. Estava chorando e a moça sem entender. Quando ela se ligou que eu era garota de programa, olhou pra mim e me deu os parabéns, dizendo que é bem difícil juntar dinheiro.

Eu: Esta cirurgia nos seios foi, especificamente, por causa da profissão ou por uma razão pessoal? Mudou o quê depois da aplicação do silicone?

Ela: Eu tive minha filha e amamentei durante 3 anos. Nada ficou no lugar, então eu ficava com vergonha. Sem o silicone, eu trabalhei muito, mas, depois dele, meu ego subiu e eu fiquei outra pessoa. Eu queria muito ter colocado e consegui, graças a Deus. Foi uma realização pra mim!

Eu: Falando em silicone nos seios, não é permitido o uso de drogas em nenhuma cirurgia. De acordo com as pessoas, a prostituição está completamente relacionada às drogas. É verdade?

Ela: Já cheguei a usar tudo: papel, êxtase, bala, maconha, cocaína. Cheguei a ficar 4 dias usando cocaína em seguida e sem almoçar, só cheirando  pó. Tem 3 meses que fiz a cirurgia e, antes dela, o médico me recomendou parar de usar fumar. Como era meu sonho colocar silicone, pensei: “Ou eu tenho silicone ou eu vou ficar acabada na droga”. Eu acredito muito em Deus, independente de trabalhar nesse ramo que o povo diz ser que coisa do “demônio”. Eu acredito muito Nele e Ele me tirou das drogas. Hoje eu posso ver a pessoa na minha frente usando e eu n quero. Acredito que existe vício porque eu era muito dependente da maconha. Trabalhava a noite toda de 9h no salto ate 4h a 5h da manhã. Quando a casa fechava, eu tinha que fumar uma maconha pra dormir, já era meu psicológico. Eu não fumava, eu “comia com farinha”, como diz o ditado popular.

Eu: Há uma real prevenção às doenças sexualmente transmissíveis com o uso de preservativo? Vocês fazem exames regularmente?

Ela: Uso camisinha constantemente em todas as relações. Tem umas que, se pagar tanto a mais, faz sem. O problema é dela. Eu sempre me preveni no oral e tudo. Quanto às doenças, eu tiro por mim e pelas colegas de trabalho. Fazemos exames de 6 em 6 meses ou de 3 em 3 meses. Quando acontece, eventualmente, de algum preservativo estourar, elas já vão no médico e faz exame de HIV. É bem tranquilo, mas tem mulher que não se cuida e dar a torto e a direita, mete de qualquer jeito. Tem boate que exige os exames porque tem muitas menins por aí doentes pelas DST’s. As camisinhas são oferecidas pelas casas. O postinho deixa as caixas fechadas, mas eu gosto da Jontex. Gosto de usar a minha, por isso compro três quatro pacotes, pois acho as outras frágeis.

Eu: No início da entrevista, você disse que o “dinheiro não é fácil, mas é rápido”. Então, essa história de que garota de programa é garota de vida fácil é mentira?

Ela: Não é vida fácil. É um meio de vida que a gente procurou para ir se sustentando. Só que, apesar de não ser fácil, é difícil sair porque envolve muito dinheiro. Você chegar numa noite e fazer mil a 2 mil reais ou chegar numa semana e fazer 4 mil é uma coisa que, normalmente, é preciso trabalhar um mês ou mais de um mês pra tirar esse dinheiro. Então, é difícil sair por causa disso, pelo dinheiro, mas não porque gostamos de nos deitar com um e com outro que a gente nem conhece. Além do mais, 90% dos clientes são homens casados e isso é complicado.

Eu: Antes de ser garota de programa, você chegou a trabalhar em outros lugares?

Ela: Eu trabalhei, antigamente, como secretária de um advogado em uma cidade do interior durante 5 meses. Ganhava 250 reais por mês com uma filha morando na casa dos meus pais. Trabalhei, também, em um laboratório. Lá eu comecei liberando laudo de exame, depois já estava fazendo tudo: tirando sangue, coletando,  fazendo tudo. Eu falei: “Oxe como é isso mesmo? 300 reais pra fazer tudo?”. Lavava as lâminas e entregava prontinho. Foi bom pela experiência. Hoje, se eu for procurar um emprego, eu sei que vou me sair bem.

Eu: Dizem que garotas de programa não estudam, a sociedade enxerga elas como ignorantes. O que você pode nos falar sobre isso?

Ela: Fiz o ensino médio completo e sou técnica em enfermagem. O que dizem por aí é mentira, é um mito. Digamos que 50% das meninas não têm estudo, mas as outras 50% tem sim. Eu sou uma das 50% que estudei, só não quis aprofundar nos estudos. Como só tenho 20 anos, penso em fazer faculdade ainda.

Eu: Acredito que o mercado da prostituição seja bastante competitivo. Diante disso, é possível estabelecer amizades?

Ela:  É dona de boate querendo se aproveitar de você e comer metade do seu dinheiro. Quando arruma um programa pra você, tipo 300 reas, ela quer ficar com 150 reais e te deixar com os outros 150. É uma exploração, um absurdo! Não existe amizade dentro do mundo da prostituição. É uma querendo derrubar a outra. Eu completei um ano neste ramo e possa ser que alguém diga que já arrumou uma amizade, mas eu acho muito difícil. De 10, uma; metade de uma, você tira uma amizade. As mulheres faltam lhe matar dentro de um cabaré. “Que eu vou lhe matar”. Tudo é matar.

Eu: Como funcionam as casas de prostituição? Há diferença entre a mais top e a mais simples?

Ela: A diferença entre as casas são os clientes. Uma casa que a entrada custa 150 reais e o programa vai a 600 reais, os clientes são vereadores, prefeitos, gente da alta sociedade. Numa casa mais simples, a gente tem que receber qualquer um, da carroça ao carro. Já nas casas mais chiques, são apenas os clientes que realmente têm dinheiro para pagar 600 reais em uma ou duas horas com uma garota de programa.

Eu: Como é a relação com os donos dessas casas?

Ela: Eu acho que todo dono de casa é meio falso, é minha opinião. Às vezes mentem para irmos, dizendo que lá está lotado e, quando a gente chega, não tem nada disso. Todo dono de casa tem uma porcentagem de falsidade, mas já conheci alguns muito bons.

Eu: Qual a diferença entre uma garota de luxo e uma prostituta?

Ela: Eu frequento várias casas, inclusive as do topo, onde me apresento como modelo. Faço programa por meio do site ou em casa normal. O valor mínimo de um programa meu é 200 reais e não faço por 150 ou 100 reais. Acredito que todas são iguais: da modelo que se apresenta lá no topo às que fazem de 100 e 50 reais porque a vida é a mesma, não muda nada. Vai mudar o quê se você ganhar mais ou menos? Você continua sendo o quê? Garota de programa. Continua passando pelas mesmas coisas que todas passam. Tem homem que te oferece 600 reais e você não ficaria nem por mil, mas, pela necessidade, você vai ficar. Então, não tem diferença nenhuma, uma hora aperta para todos.

Eu: E esta casa em que você mora, mais alguma garota mora com você?

Ela: A gente fecha no boca a boca, sem contrato, para ficar aqui. Tem mais uma comigo, dizendo ele que vai trazer mais duas ou três meninas. Pela situação da casa, você vê que a gente não tem obrigação de limpar. Ele tem que colocar uma pessoa pra limpar e fazer almoço, mas não está cumprindo. Quando a gente chegou, estavam todas as camas sem forro. Ontem, eu tive que pedir um forro. A casa não é ruim, a limpeza que deixa a desejar. A gente já trabalha muito, dia e noite. Chegar e ainda limpar a casa, não existe isso em lugar nenhum.

Eu: No momento da relação com o cliente, vocês usam produtos eróticos?

Ela: Eu não sou muito fã. A única coisa que eu e acho que outras usam bastante é o lubrificante. E, mesmo assim, não é tão bom.

Eu: A prostituição é vista como algo sujo e, muitos, atribuem isso à mulher como uma pessoa que também é suja por ter relação sexual com muitos homens. Como funciona a higiene de vocês?

Ela: Eu quero quebrar esse tabu de garota de programa ser suja. Se a gente fizer 20 programas, são 20 banhos. Na hora de dormir, outro banho. É um sabonete pra região íntima, um pro corpo e outro pro rosto. A gente é chata e acredito que todas sejam assim. Não tem esse negócio de banho rápido, a gente se cuida bem.

Eu: Qual a situação mais difícil pela qual passou?

 De ir pra um motel pra ficar com um rapaz, chegar lá, ele estar cheirando e usando drogas e querer me pagar pra usar drogas. Eu falei que não e ele pôs uma arma na minha cabeça. E eu tive que ficar tranquila, né? Porque se eu falasse e me alterasse, ele poderia me matar. Isso aconteceu, aqui, em Vitória da Conquista. Eu fiquei meio desesperada, só que quieta e eu falei assim: “Ah, vou continuar tomando banho porque se ele for me matar, vai me matar quieta”. Foi uma das situações mais difíceis que já passei.

Eu: Pode nos contar outra situação tão difícil quanto?

Ela: Numa despedida de solteiro, fui fazer show para os rapazes. No final, acertamos o valor e fomos para o motel: eu, o noivo e o irmão dele. Quando chegou lá, eu pintei e bordei, mas não teve quem fizesse os meninos ficarem de pau duro. Acho que por causa da bebida e de muita droga. Então, o irmão do noivo começou a me agredir verbalmente; já o noivo estava tranquilo porque homem que é homem sabe quando não vai dar conta e que a culpa é dele. O irmão dele começou a dizer q não ia me pagar.

Eu sou uma pessoa muito esquentada, eu não sei como estou nessa vida ainda porque não é pra gente esquentado. Eu estava querendo ir embora com meu dinheiro. Eu disse “Olha, eu não tenho culpa se você não está funcionando seus negócios aí direito”. Conversa vai, conversa vem, ele já sabia que eu tinha filho e foi fazer uma sugesta pra mim – “Traga a sua filha e sua mãe pra ver se eu não como”. Aí me alterei e fui em cima dele dando tapas e murros. O irmão dele me pegou, pediu calma e disse que ele ia me pagar. Na volta, queria me deixar no meio da rua e em qualquer lugar, não aceitei, comecei a ser agredida verbalmente e comecei a chorar; mas, no final, acabaram me deixando lá na casa em que eu estava antes de ir pra despedida.

Eu: Qual a diferença do início para hoje, após 1 ano?

Ela: A experiencia que a gente adquiri. A gente passa por muita coisa difícil: a agressão verbal e física. Fisicamente nunca fui agredida, mas verbalmente foram várias e várias vezes. A experiência que a gente pega em trabalhar em casa, tanto em prive ou com cafetão ou outras pessoas do meio. A gente mais esperto.

Eu: O que você pensa em relação ao futuro?

Ela: Sair o mais rápido possível dessa vida porque essa vida não é pra ninguém. O pessoal fala: “Ah, que ganha dinheiro!”, mas pagamos por cada centavo que a gente ganha. Noites mal dormidas, saudades de casa, de mãe, de uma vida social que a gente não tem. Como somos bem taxadas, se a gente chegar num bar, dependendo da cidade, o pessoal já fala que ali é puta, é isso e aquilo, mas as coisas não são assim.

Minha filha está crescendo e eu vou morrer negando que eu já estive nessa vida um dia porque, se eu fiz por necessidade, no dia que ela tiver o primeiro aperto, ela também entra nesse mundo e eu não quero que ela passe por tudo isso que eu estou passando. Eu sei que, se um dia ela entrar, vai ser pior porque, cada dia que passa, as coisas vão só piorando. Quando minha mãe dizia “Não faça isso”, hoje eu entendo a importância.

Eu: O que você diria para as meninas que estão querendo começar a se prostituir?

Ela: Entre consciente, pensando em ganhar um dinheiro e sair porque essa não é uma vida de se levar pro resto da vida. Esse corpinho não vai durar pro resto da vida. Então, entre com um objetivo, um foco ou para abrir um negócio porque dá um bom dinheiro e porque não é legal chegar aos 40 anos fazendo programa.

 

Com essa mensagem, terminamos um papo que rendeu bastante.  Holly, muito obrigada pela entrevista. Sei que é difícil se expor. No Brasil e no mundo, a prostituição ainda é um tabu. Espero que permaneçamos em contato uma com a outra. Você é linda e merece sucesso. Agradeço por ter se aberto e ter nos desvendado um pouco deste mundo. Qualquer coisa, pode contar comigo!

Em uma pesquisa realizada nos Estados Unidos com 86 estudantes universitários no ano passado, um terço respondeu que estupraria uma mulher se isso não fosse crime. Além disso ser nojento e nos provar, mais uma vez, o porquê as leis surgem e são tão necessárias, muitos desses homens não entendiam o sexo sem consentimento como uma agressão à mulher, mas sim como uma forma de provar a masculinidade. Quando li isso, coloquei a mão na boca e o pensamento foi para um longo “puta que o pariu” – sendo que esse palavrão, no meu caso, não quis fazer referência alguma à quem o colocou no mundo. Inclusive, coitada por ter filhos tão calhordas.

Quer dizer que ser másculo é forçar uma mulher a fazer sexo? Para esses homens, a mulher provoca e depois faz cu doce. Homens, a gente só provoca quem quer e dar um sorriso nem sempre é provocação, é simpatia. Sensualidade não é algo que a gente faz para ter, é natural. Usar roupa curta também não é querer chamar atenção, decote não é armadilha para atraí-los. Roupa não define ninguém, apenas mostra o quanto somos vaidosas e queremos estar e nos sentir bonitas. Se você acha diferente, sinto muito: já caiu no meu conceito e faz o favor de nem me ler mais.

Nessa hora, eu me pergunto: Cadê aquela propaganda toda do “Eu não mereço ser estuprada”? Ela deveria continuar firme e forte para continuar combatendo casos como os que me deparei. É claro que situações tais não acabam assim, mas fortalecem a nós, mulheres. Moça, você precisa ter personalidade e certeza de que o errado é ele e que você pode sair por aí como quiser. Cara, quer chamar uma mulher de gostosa? Faça-o apenas para si, ela não quer saber disso. Quer bater uma? Coloque um filmezinho pornô ou ative sua imaginação e faça isso em casa.

Na pesquisa também é dito sobre o fato das mulheres ficarem mais excitadas com o perigo. Defina-me, então, o que é perigo. Uma coisa é estar com quem você gosta se aventurando sexualmente e outra é com uma pessoa desconhecida, de forma violenta e com risco de pegar todas as doenças possíveis. Cada dia me surpreendo mais com tanto desrespeito e, por outro lado, até prefiro que tudo isso venha à tona porque só, assim, a gente compreende melhor as coisas e ataca com mais gosto.

Diz aí o que você acha disso tudo porque eu, simplesmente, odeio e continuarei a atacar esses modos “másculos” enquanto me for possível. Não me rotulo, odeio machismo, tenho minha personalidade e, portanto, ideias definidas. Acredito que vivemos uma violência verbal todos os dias, somos agredidas e estupradas a todo momento. No entanto, aceito ouvir de todos os lados porque, como dizem, “é conversando que a gente se entende” e eu concordo com isso. Então, vamos papear.