HomeArtigo criado porLu Rosário (Page 36)

A gente não some porque quer. Há sempre toda uma história por trás disso e, em cada história cotidiana, é possível encontrar suspeitas e certezas de que uma semana longe do Pudor Nenhum é significativo o bastante para passar batido. Infelizmente, não vou poder contar que estava curtindo as sensações carnavalescas da pele nem atiçando os ouvidos com sussurros. Não, eu não estava carmim. Em momento algum, coloquei meu batom vermelho ou escureci meus olhos para aprofundar o olhar. Posso dizer uma coisa: estava bege.

O bege é uma cor sem sabor e sem quê nem pra quê, mas foi assim que eu me encontrei. Estudos, trabalho e problemas de saúde inviabilizaram-me publicações inspiradoras. Eu adoraria ter chegado aqui cheia de novidades e ter me vestido de selvageria durante este tempo, mas fui trouxa e me rendi aos desmandos de uma vida tipicamente urbana. Não houve nem um papo mais saliente trocado virtualmente, foi tudo muito igual e as malícias estavam na vontade de voltar pra cá e dizer pra todo mundo se foder e me carregar junto. Precisava e ainda preciso muito disso.

Eu preferia estar carmim, mas eu estava bege. Agora que o tempo me deu um help, as coisas voltarão para seus trilhos. Pode vir, olhar, participar nos comentários, enviar-me e-mails e dizer todas as suas malícias, estou aqui para isso: para ser um pouquinho de cada um nessa representação que se despe costumeiramente de pudores.

Sabe aquela coisa de que todo homem deve pagar as contas quando o casal sai? Pois é, esse é o questionamento básico que separa uma mulher independente de todas as outras. Em nossa sociedade, uma coisa é certa: ao homem, cabe o papel financeiro. Ele quem deve pagar toda a conta em cada saída de ambos e, ao morarem juntos, ele quem deve pagar todas as despesas da casa. O pior é que isso acontece, ainda que ela venha a trabalhar. Isso ocorre devido a aceitação da mulher e à cultura que coloca o homem em uma situação de privilégio.

Você talvez diga que não há um privilégio nisso aí, mas pensemos bem: nossa sociedade é capitalista e a máxima acaba sendo a do “manda quem tem dinheiro”, então por que não compreender tais circunstâncias desse modo? Mas não duvido nada de que você rebata isso me dizendo que a mulher ganha menos do que homem e blablabla, só que eu fico me perguntando: Você concorda que seja assim? Por que não lutar para que isso mude? Além do mais, ganhar mais te impede de dividir os gastos? Nesse sentido, sempre pensei que se os dois comeram, então por que o homem precisa arcar com todos os custos sozinho? Pensar dessa forma, aponta-nos como independentes, ou seja, não precisamos do outro para sair de tal lugar ou adquirir algo. A gente simplesmente paga o que consumimos e acabou, a parte dele é dele.

A mulher independente, portanto, assusta porque ressalta a não acomodação da mulher e rompe com a ideia de que o homem é o dono do pedaço. Ela sabe que, a qualquer momento, pode pagar a sua parte, levantar e ir embora se a conversa estiver chata. Sabe, também, que não depende dele para nada e que suas decisões podem ser tomadas na hora que der e vier. Ele, sabendo disso, passa a ser mais cuidadoso no seu trato e compreende que o fato dela ser tão livre exige mais dele. E, esse mais, nada tem a ver com as questões financeiras porque ela também opta dentro das suas possibilidades.

Quando uma mulher é livre, em todos os sentidos, não precisa brigar por pensão – que, inclusive, é o dinheiro que ele recebia para mantê-los. Nesse contexto, romper os vínculos acaba sendo uma tarefa mais fácil. Não precisa, também, prestar contas nem pedir nada a ninguém. Tudo o que der vontade, faz. Afinal, o bolso é seu e você coloca ou tira a mão dele quando quiser. Para você ver: a independência está totalmente ligada ao dinheiro, é inevitável. Vincular-se a alguém por causa disso é prender-se a ela. Para quem submete, isso é bom porque tem o outro na palma da mão. Para quem está submetido a isso, não é tão gostoso já que a dependência traz outros aspectos que não são nada benéficos para si mesmo.

Se ser assim, liberta do homem, acarretar em afastá-los, então não se preocupe porque homens que têm medo de viver em par de igualdade não valem a pena. Para toda panela, existe uma tampa. Logo, você achará a sua e a relação entre os dois será bem melhor e mais sadia. Submissão é uma palavra que, como eu sempre digo, só é legal no sadomasoquismo. Fora isso, sejamos cúmplices um do outro e deixemos de bestage.

 

Este livro é um romance e tanto que não deveria sair da prateleira dos mais atrevidos. De cunho pornográfico e temática homossexual, ele foi publicado anonimamente em  1893 em exemplares atribuídos a Oscar Wilde. No entanto, após passar pelas mãos de Charles Hirsch – dono da Librairie Parisienne de Londres – que encontrou grafias diferentes, além de correções e rasuras, foi considerado fruto de um conjunto de escritores amigos de Wilde, apesar deste ter sugerido algumas coisinhas do enredo e realizado correções no manuscrito. Em 1986, Teleny, ou o reverso da medalha foi publicado. É bom deixar claro que, antes disso, sua publicação não foi aceita devido a Lei de Publicações Obscenas. Já ouviu falar desta lei? Pois é. Ela foi criada em 1857 e regulava as publicações de cunho erótico e sexual, gerando a autocensura como consequência.

Neste livro, a gente se depara com os conflitos de um jovem a respeito da sua sexualidade. Ele percebe o quanto se sente atraído por outros homens, mas luta contra isso por causa da sociedade e dos conceitos morais em que está inserido. Ao ler, você percebe o quanto isso é real e contemporâneo, apesar de estarmos em épocas totalmente diferentes. Acontece que, em um concerto, ele se apaixona por um rapaz (no caso, Teleny) e, assim, começa a história de paixão entre eles. Com cenas de sexo bem escritas e reveladoras, a escrita impressiona pela beleza dos detalhes. Neste romance, também é apresentada uma visita ao bordel (ou casa de tolerância – como se chamava), afinal, o jovem precisava acompanhar os amigos nos desfrutes da carne e em sua estampa heterossexual.

Para você perceber o quanto essa leitura é deliciosa, deixo-lhes um trecho.

Quando isso aconteceu, eu mal pude me conter, agarrei sua cabeça cacheada e fragrante entre minhas mãos; um tremor percorreu meu corpo inteiro; todos os meus nervos encontravam-se no limite da tensão; a sensação era tão penetrante que quase me enlouqueceu.

Depois, a coluna inteira estava dentro da sua boca, a ponta tocando seu palato; sua língua, achatada ou engrossada, provocava-me arrepios por toda parte. Num momento eu era sugado com avidez, depois mordiscado ou abocanhado. Gritei, implorei para que ele parasse. Não podia suportar tamanha intensidade por mais tempo; aquilo estava me matando. Se tivesse continuado por apenas mais um instante, eu teria perdido os sentidos. Ele era surdo e insensível às minhas súplicas. Relâmpagos pareciam passar diante dos meus olhos; uma torrente de fogo percorria todo o meu corpo.

– Basta… pare, já chega! – gemi.

Eu conheci este livro por meio de uma amiga que amo um tanto e, oh, adorei. Super indico meeeeesmo. Não é à toa que estou falando sobre ele aqui, não é? Ao ganhá-lo, eis que também recebo essa linda dedicatória. Caso queira lê-lo, não será tão difícil encontrar. Lembre-se do que falei e saiba que vale a pena adquirir uma leitura tão importante na história da literatura erótica e tão gostosa de ler.

Fotografia: Lu Rosário.

Fotografia: Lu Rosário.

Sabe quando você está em sua timeline, no Facebook, e de repente se depara com imagens lindas sendo espalhadas em algum canto do Brasil? Foi assim que aconteceu comigo ontem. Uma pessoa querida, que mora na capital cearense, está realizando uma intervenção com mais dois amigos. Sem um nome definido por não se tratar de um projeto, preferem dizer que são ações em prol do respeito ao próximo e das mais variadas formas de pensar e agir.

Jadiel Lima é um estudante de jornalismo e Sarah Rodrigues cursa agronomia, ambos na Universidade Federal do Ceará. Para completar a tríade dos idealizadores deste belo trabalho, temos o tatuador e ilustrador Renan Feitosa. De acordo com eles, a ideia é envolver mais gente a cada vez que marcarem as intervenções e, principalmente, meninas. De acordo com Sarah, tudo surgiu a partir da observações de espaços da praça do bairro em que frequentam. Ela completa que

Lá tem uns gramados, um half pipe enorme e é frequentado pela juventude do bairro. Aí surgiu na ideia de dar mais cor e vida cultural e política nesse espaço, uma expressão de um movimento e uma vida que já existe.

 

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As imagens são pôsteres lambe-lambe. Para quem não sabe, estes possuem tamanhos variados e são colados em espaços públicos de modo mais econômico. E, inclusive, por não envolver muitos gastos que têm feito parte da arte urbana contemporânea. Além do mais, os desenhos são feitos pelos três. Sarah completa que “O Renan e Jadiel já têm uma naturalidade maior nessa parte de criar porque já fazem isso da vida, digamos. Jadiel publica as tirinhas dele há um tempo e o Renan é tatuador/ilustrador. Pra mim que tá sendo um processo bem novo e lindo. Sempre fui apaixonada por desenhar, mas tenho até hj muita vergonha de mostrar. Fazer esse trabalho na rua é até um grande exercício, sabe? Haha”.

 

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Em relação a aceitação, eles perceberam um certo estranhamento entre as pessoas no momento da colagem. Entretanto, ao verem os desenhos prontos, acabavam ficando mais tranquilos e conversando sobre a arte que lhes era apresentada.

Na última intervenção, o Renan fez um lambe de uma moça levantando o vestido e aparecia um pedacinho da bunda da indivídua. Aí arrancaram essa parte do lambe… rs.

 

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As imagens estão no bairro Parangaba, em Fortaleza. Como vêem, as imagens são pura inspiração e nos permitem proferir um discurso lindo a respeito das mulheres, do corpo e da liberdade. Quem tiver interesse de conhecer e participar, é só deixar um comentário aqui e eles entrarão em contato com você. Agora, suspire e suspiremos.

Linda. Sensual. Provocadora. Em três palavras pontuais, descrevo Giselli Moreira e sua fotografia. Com traços recorrentes, imagens que aguçam a imaginação e outros sentidos, ela consegue apresentar a si mesma de uma forma que transgride os pensares. O feminino é a sua maior representação por meio da profanação do corpo e do revelar-se inteira.

O ensaio ‘O Mover-se’, publicado na edição deste mês da Revista OLD, apresenta uma entrevista maravilhosa sobre o seu descobrir-se no espaço fotográfico, bem como o desenvolvimento e o fluir dos movimentos enquanto lugar de libertação e multiplicidades de si. De forma inspiradora, ela responde em entrevista que

Fotografar o próprio corpo, percorrer o corpo, costumo dizer, é um abismo que me salva, pois preciso me expor, alimentar-me do caos para alcançar alguma liberdade, continuar.

Assim, a OLD questiona sobre o modo como foi desenvolvido O Mover-se. Há uma coreografia não estabelecida e um sentir que transborda frente a lente fotográfica. O corpo ressalta as não regras impostas e o feminino emerge em cada rabisco que os movimentos ressaltam. De acordo com Giselli,

Há um corpo-impulso-múltiplo (fora de) em mim que desconheço, que quase tocar, quase posso ver, que perturba e, a priori, nada diz. Acredito que o ensaio Mover-se surgiu neste ‘quase’, neste silêncio e nos gestos que respiram. É um agenciamento de desejos, urgências e afetos que, inconscientemente, toma assento no ato fotográfico e ressoa depois que o processo acaba.

Para matar a vontade de ver um pouco d’O Mover-se, deixo-lhes uma fotografia deste ensaio. Sintam esse libertar ao qual a fotógrafa se rendeu e acesse a Revista OLD para ver mais.

Fotografia d'O Mover-se, por Giselli Moreira.

Fotografia d’O Mover-se, por Giselli Moreira.

Não é de hoje que a questão do preconceito me traz reflexões. Nunca consegui compreender o porquê das pessoas não aceitarem o outro por uma característica externa, uma doutrina ou qualquer coisa que lhe seja particular. O preconceito, como o próprio nome diz, é uma ideia ou conceito pré-concebido sobre alguma coisa. É julgar sem antes conhecer e usar da ignorância para impor sua forma de pensar. Estou falando isso devido a algumas histórias que acontecem comigo devido a cor da minha pele. Na maioria das vezes, acontece de modo silencioso. E não só porque acontecem comigo, mas por ver outras pessoas compartilharem histórias parecidas. Logo, são exemplos que se repetem cotidianamente.

A questão racial está intimamente ligada a trajetória histórica do nosso país. Índios foram violentados e violados (inclusive sofrem muito preconceito até hoje e seria muito legal um dia poder conversar com um descendente direto para saber como isso se dá). Negros foram trazidos como objetos e sofreram em nossa terra. Após o período escravocrata, quem formou as favelas e permaneceu sofrendo com todo o seu passado? O negro. Estatisticamente, são eles que ocupam, majoritariamente, a classe mais desfavorecida da sociedade. Com isso, também possuem menos oportunidades.

Para ser mais específica neste assunto, pensemos no quanto é comum pensar que João ou Maria trabalham naquela casa como auxiliar de serviços gerais  porque são negros, que ele está ali naquela casa de material de construções porque é empregado e atua no serviço braçal. Caso tenha uma condição notavelmente melhor, há que certificar-se primeiro para depois poder manter um diálogo maior e mais íntimo. Se for homem, pode ser que ele seja bem financeiramente porque mexe com algo ilegal; caso seja mulher, nem sei o que devem pensar. Acontece que pelo fato de ter uma pele escura, a pessoa sempre é julgada como se isso a tornasse diferente dos outros.

Além do que citei acima, existe a hipersexualização do negro. O homem é sempre visto como aquele que tem um pênis grande e grosso; a mulher como aquela que é quente na cama e cuja pele é tida como da “cor do pecado”, conferindo-lhe um ar de pecaminosidade. Esses estereótipos colocam-nos como impróprios para o matrimônio e propícios às relações casuais. Segregá-los a tais pensamentos é ser preconceituoso e esta perspectiva de pensamento está clara nos meios sociais, basta prestar atenção no que as pessoas dizem por aí, olhar mais atentamente ao seu redor e atentar-se às telenovelas e programas televisivos, bem como polêmicas a respeito. Assim, você vai saber do que estou falando e ser mais cuidadoso para não fazer perpetuar algo que soe preconceituoso.

Gente, vocês viram essa propaganda publicitária da Bombril? Em uma das falas, Ivete Sangalo diz que “A gente arrasa no trabalho, faz sucesso o dia todo e ainda deixa a casa brilhando. É por isso que toda brasileira é uma diva”. Essa concepção construída historicamente sobre a mulher tem buscado outros rumo e se desmistificado cotidianamente. Ainda assim, é uma tarefa difícil porque, na mulher, está encrustada a ideia de que a casa e os filhos sempre serão obrigação dela.

Por meio de movimentos feministas, algumas conquistas têm sido alcançadas ao longo do tempo. Para quem não sabe, a mulher não tinha direito de fazer sexo por prazer nem de votar em um governante para o país. A coisa era barra pesada. Para ela, os papeis eram apenas de reprodução e dona do lar. Com a necessidade de ir trabalhar fora, tais papeis permaneceram, ou seja, não houve uma divisão igualitária do trabalho nem um repensar sobre a mulher. Numa sociedade machista, não haveria razão de se mudar isso, não é? Veja a propaganda abaixo!

 

 

A mulher, portanto, passou a ter uma tripla jornada de trabalho. Para quem pensa que isso é moleza, engana-se. Trabalhar fora e manter a casa arrumada não é um trabalho fácil e não deve considerada a razão para sermos divas. Ser diva é se mostrar mulher, independente de como se lida com as tarefas diárias. Propagar uma ideia, tal como foi feito pela marca, é afirmar que tais papeis devem prevalecer e, praticamente, demonstrar que a gente está satisfeita com isso e se achando um sucesso.

Quem disse que amamos isso? A gente se acaba com uma rotina dessa. Se pra ser diva for assim, preferia não ser nada. O tempo passa que a gente nem vê. O cansaço nos toma. Quando chega a noite, ainda querem uma noite de sexo selvagem como se nosso dia tivesse sido tranquilo (até porque tarefa de casa não é considerada quase nada no imaginário popular). A rotina da mulher nunca precisou e mereceu ser essa. Todos nós temos braços e pernas iguais para dividirmos as tarefas do mesmo modo, sejam elas domésticas ou não. Todo mundo consegue lavar prato, limpar banheiro e passar pano na casa do mesmo jeitinho.

A partir disso, Dani Calabresa – nesta propaganda – também disse “Toda mulher é uma diva, e todo homem é ‘diva-gar’ [devagar]”. Com o orgulho ferido, homens queixaram-se e consideraram a campanha uma ofensa. Com isso, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) abriu um processo para julgar o caso. Em vez de as mulheres tomarem essa atitude, os homens que pegaram a frente. Oh, esse assunto dá pano pra manga. Disse o que acho e agora quero ver o que vão continuar  falando por aí porque, sinceramente, se os meios publicitários agem assim é porque ainda será preciso muita luta para mudar este cenário. Desconstruir essa ideia a respeito de homens e mulheres é mais do que preciso, é essencial.